As angústias e suas defesas

by Administrador

Por Sergio Rossoni1

Não sou bem resolvido, tenho muitos preconceitos. Um deles é contra a classe média. Além disso, sou cheio de maus hábitos: charutos, cachimbos, álcool, comida com sangue e não ando de bike. Para mim, o vício e a culpa são o centro da vida moral.

Enfim, não sou uma pessoa muito saudável. Por isso, não sou de confiança. Mas não pense que sofro do fígado; sou apenas um fraco.

Tenho uma amiga, muito inteligente, que costuma me chamar de "flagelo da classe média".
Quando falo "classe média", não olhe para seu saldo bancário, olhe para dentro de si mesmo. Classe média é um estado de espírito, e não apenas uma "alíquota" do imposto de renda ou o tipo de cartão de crédito que você tem.

Por maior que seja a variedade entre os seres humanos no que tange à raças diversas, cores, cultura e costumes, nossos temores e angustias mais profundas enraizadas em nosso inconsciente são as mesmas em todos os homens.
Medo da morte, da solidão, angustia do abandono, perguntas sem respostas (de onde vim, para onde vou?), sentir-se frágil diante do mundo externo, etc, estão presentes no ser desde o início da vida, ou melhor, o inicio da vida é a largada para a origem dos medos. Medo de perder a vida, ser destruído, o grande conflito entre o que conhecemos com o nome de pulsão de vida versus pulsão de morte.

Nos defendemos destes medos e inseguranças criando phantasias, entre outros mecanismos de defesas. Um exemplo disso, citando Melanie Klein, é o processo de idealização que um bebê de um objeto (mãe), criando em seu mundo interno a imagem de uma mãe muito boa que irá defende-lo contra uma mãe má, ou objeto mau.
De certa forma, nossos medos e angustias são os mesmos. Quando identificamos a phantasia de um ser, estamos automaticamente acessando a phantasia de todos.

Todos nós queremos o nirvana; todos nós tememos a morte, a destruição; Todos nós tememos a solidão, o abandono, etc.

Durante certo tempo, dentro de um tratamento analítico, as phantasias apresentadas pelo analisando são básicas, idênticas a todos, podendo ser facilmente identificadas pelo analista, já que os medos e angustias não variam muito. Questões edipicas (medo da solidão), por exemplo, aparecem constantemente em diversos casos, bem como outros medos em comum, facilitando o trabalho do analista  de forma geral.  No entanto, após um período, as phantasias começam a ganhar complexidade, de acordo com a história de cada um.

Cabe ao analista interpretar estes conteúdos trazidos pelo analisando e informá-lo sobre suas phantasias e seus mecanismos de defesa utilizadas pelo ego. Para Melanie Klein, interpretar é o resultado da somatória entre conjunto de palavras, o setting, a transferência e a intuição do analista.
Sendo assim, o analista deve se perguntar sempre em relação ao seu analisando: Qual é o seu medo?   Qual é o seu desejo?

Tais perguntas podem ser utilizadas dentro de um contexto que sirva para o analisando visualizar sua situação. No entanto, normalmente não deve-se utilizar tais perguntas de forma direta e certeira. Lembremos que o analisando no inicio não tem a menor noção do que sejam suas phantasias ou medos, etc.

Logo, para se formular uma interpretação é necessário saber qual é a phantasia do analisando, acessando assim seus conteúdos e medos, bem como as defesas utilizadas pelo ego. Não é possível interpretar somente com base nas defesas do ego. As mesmas defesas são utilizadas para phantasias distintas. Para se chegar a uma conclusão, deve-se observar o todo: phantasia + medo +defesa. Toda interpretação deve conter ansiedades e defesas.
Até meados de 1923, Freud teve seu estudo dirigido para o desejo libidinal. Após 1923, em o ego e o id, bem como em inibições, sintomas e ansiedades, sua faceta passa a ser as defesas utilizadas pelo ego.

Tais defesas são expressas em phantasias, que pode ser entendida como a forma com que eu acho que as coisas a minha volta funcionam. No entanto, as coisas a nossa volta nem sempre acontecem da forma como desejamos. Daí, frustrações, medos, etc. O mundo não corresponde à minha phantasia. Assim, as defesas servem como escudos contra a realidade nua e crua. No entanto, tais defesas são necessárias em certa medida para se obter um certo equilíbrio entre o mundo real e o mundo interno do ser. Muitas vezes, retirar tais defesas de imediato podem lançar o homem em direção ao caos.

Seria como retirar a muleta do aleijado, que necessita do acessório para andar. Por outro lado, viver na phantasia desequilibra o ser, causando dor e frustração. Gostaria de dar um exemplo: Minha phantasia é achar que sou o melhor em tudo o que faço. Minha frustração é que perceber que o mundo não me reconhece como eu gostaria. Minha realidade é que sou normal, nem gênio, nem ignorante, nem melhor nem pior, etc. Sou um ser normal idêntico à milhares, carregando em mim qualidades e defeitos.  Meu alívio é perceber que ser bom em tudo é impossível, algo phantasioso. Meu ego pode utilizar, por exemplo, da onipotência, como defesa contra meu medo em perceber o quanto sou frágil, com medo de ser destruído, etc.

Assim, posso interpretar a phantasia = sou o melhor

Defesa = onipotência

Realidade = Sou igual a todos no mundo. Não existe super homem.

Segundo Freud, nossas angustias e medos são estão enraizados no passado, ligadas à primeira infância. Freud com as fases ou Melanie Klein com as posições, entre outros psicanalistas, deixam claro sobre a origem de nossas dificuldades terem suas raízes no nascer, algumas até mesmo já embutidas no ser. No entanto, tudo é revivido sempre, através da transferência. Minhas defesas permanecem atuando todo tempo diante de problemas atuais que se assemelhem aos do passado, fazendo com que eu assuma a mesma postura. Assim, o passado é importante, mas ele continua vivo no presente, no aqui e agora. Não é necessário que o analista mergulhe somente na historia passada de seu analisando. Um exame é importante, porém, mais importante do que isso é perceber que as phantasias e defesas continuam agindo no presente, da mesma forma. O analista deve se ater ao fato do aqui e agora.

Toda phantasia se apresenta como um tipo de medo. Na histeria, por exemplo, está contido o medo de crescer, medo do mundo externo, medo de qualquer coisa que aponte o contrário da minha crença de que sou o melhor do mundo em tudo, medo de que as pessoas não façam aquilo que eu desejo, medo de ficar sozinho, medo de encarar minha imperfeição, medo de que o outro não me dê atenção, que neste caso seria uma obrigação do outro. Meu mundo externo é mau, repleto de coisas más, contrario do meu mundo interno. Neste caso o objeto bom está internalizado, sendo o mundo externo mau.

1Psicanalista com clínica em São Paulo - E-mail: sergio.rossoni@hotmail.com

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