O desenvolvimento emocional do ser humano em Winnicott

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Por Pe. Ernani Maia dos Reis¹

Neste artigo, Winnicott desenvolve a sua teoria do desenvolvimento emocional do indivíduo, tendo por objeto os relacionamentos interpessoais: o indivíduo não apenas adquire uma autoconsciência pessoal, como sendo alguém que não apenas se relaciona com o ambiente, mas que, cedo ou tarde, toma parte na manutenção e na recriação do mesmo.

Winnicott presume um desenvolvimento inicial saudável, sendo que este depende de um ambiente emocionalmente estável e contínuo, que é dado acima de tudo pela mãe através do holding fornecido à criança.

Neste ponto, afirma a importância dos instintos: tais forças biológicas poderosas impelem à busca de satisfação; esta, se encontrada no momentos culminante da exigência, leva a experiências de satisfação (prazer) que se tornam estruturadoras do ego. Portanto, a mãe suficientemente boa exerce seu papel importante, apoiada pelo ambiente familiar, em relação a tais experiências de satisfação que darão ao indivíduo a noção de continuidade ao longo do tempo. Assim, gradualmente ele percebe a existência de três pessoas (ele e mais duas), passa pelo Édipo – com todos os seus desdobramentos com suas fantasias, para meninos e meninas -, conforme enunciado por Freud, podendo avançar, passo a passo, para outros relacionamentos mais complexos. No entanto, Winnicott enfatiza que inicialmente o bebê é implacável, tornando-se mais tarde capaz de concern, o que terá influência fundamental em seus relacionamentos interpessoais. Ao mesmo tempo, interpreta o Édipo freudiano a partir do primeiro relacionamento triangular, afirmando que algo se perde, se aplicado às etapas anteriores, quando só estão envolvidas duas pessoas ou quando o objeto parcial está internalizado.

Abordando em cheio a sexualidade humana: inveja do pênis, fantasias sexuais, penetrar (homem) e ser penetrada (mulher), a constituição bissexual do ser humano, etc, afirma que a base de tudo é o amor que se desenvolve entre a criança e as outras pessoas, sendo que estas são percebidas pelas crianças de modo diferenciado, mais objetivo ou subjetivo. Considero uma afirmativa importante o fato de dizer que a doença não deriva do Édipo, mas da repressão das idéias e inibição das funções oriundas da ambivalência. Assim, deixa claro a importância de se usar o objeto e este ter a capacidade de permanecer ali, vivo, intacto, a partir de um relacionamento firme. Quando este estágio é alcançado, a criança se torna capaz de tolerar os sentimentos humanos mais intensos sem construir defesas excessivas contra a ansiedade. As defesas, porém, sempre existirão, e levarão à criação de sintomas, que são organizações de defesa contra a ansiedade (em grande parte surgida dos desejos de morte inerentes ao Édipo).

Segundo Winnicott o desenvolvimento emocional da criança tem como base o funcionamento dos órgãos infantis no decorrer do tempo, dependendo de onde esteja a ênfase (oral, anal, genital - alimentar, excreção, excitação). No entanto, para que tudo isso ocorra em relativa saúde, permanece a necessidade de um “longo período de estabilidade do ambiente para que a personalidade possa chegar a um acordo consigo mesma em todos os níveis de consciência”. Segundo ele, a psique se forma a partir do material fornecido pela elaboração imaginativa e a alma é uma propriedade da psique que depende, em sua saúde, do funcionamento do cérebro e que, a meu ver, ele aproxima da noção de capacidade de desenvolver o sentimento de culpa e de responsabilização, já que afirma que a alma não é implantada de fora para dentro.

Por fim, um ponto importante do artigo está na abordagem do tema do inconsciente, mais especificamente o inconsciente reprimido. A ação da psicanálise está na direção de trazer para a consciência o que está no inconsciente, e isto se dá, acima de tudo, através da revivência na relação entre o paciente e o analista (neurose de transferência), da qual o analista não pode abusar nem tirar proveito para si. Enquanto o neurótico deseja se conhecer, o psicótico não se interessa por isso.

O Estabelecimento de Status de Unidade.

Aqui, Winnicott trata do desenvolvimento emocional próprio da fase de lactação, antes da relação triangular, ou seja, no período em que a criança é capaz de formar um relacionamento apenas com um outro (a mãe). Supõe-se um desenvolvimento anterior bem sucedido, onde o self é sentido cada vez mais como uma unidade, dando à criança ideia de um eu e um não-eu. O seio, então, é visto como parte de uma pessoa.

A posição depressiva é vista como decorrente do amor impiedoso: o ataque deflagrado contra o objeto pelo instinto. O concern (saber sobre), visto como o reconhecimento da mãe como sendo a pessoa que cuida do eu e para quem foi dirigida o ataque instintual faz surgir o sentimento de culpa que o leva à capacidade de se preocupar. Assim, a culpa representa uma conquista do desenvolvimento. A ausência dos cuidados pessoais e contínuos da mãe impede esse desenvolvimento. A solução do processo provém da capacidade para fazer reparações desenvolvida pela criança que pressupõe o uso do objeto, dando tempo à criança para que organize as numerosas consequências imaginativas da experiência instintiva. O objeto deve subsistir, não retaliar. Assim, gradualmente o bebê passa a acreditar no esforço construtivo e a suportar a culpa, separa o que é bom do que é mau no interior do self e torna-se livre para o amor instintivo. Constrói-se o círculo benigno.

O mundo interno do bebê é mantido na fantasia, entre as fronteiras do ego e do corpo limitado pela pele. O fenômeno interno mau que não pode ser controlado, contornado ou excluído transforma-se num empecilho. Ele se transforma num perseguidor interno e é sentido pela criança como uma ameaça que vem do interior. Tornando-se intoleráveis, tais elementos persecutórios são projetados para o mundo externo; em casos extremos, assume a forma de delírio.

Assim, quando existe a expectativa de perseguição, uma perseguição real produz alívio, um alívio devido ao fato de que o indivíduo não precisa se sentir louco ou delirante.

Da Teoria do Instinto a Teoria do Ego.

Em “Da teoria do instinto a teoria do ego”, Winnicott descreve os fenômenos precoces do desenvolvimento emocional primitivo, a saber: integração, personalização e o estabelecimento da relação com a realidade. Na base dos 3 processos está a mãe suficientemente boa que se adapta perfeitamente ao bebê (identificação) nesta fase de dependência absoluta, fornecendo o holding e handling necessários à criança.

A relação com a realidade parte da experiência instintiva (estado excitado) cuja satisfação é oferecida pela mãe no momento em que ela se manifesta (estado tranquilo), permitindo o ato criativo: a ilusão de que o seio foi criado por ele. Assim, a mãe vai fornecendo a base para que o bebê suporte as outras experiências de excitação, dando-lhe segurança, a partir da memória, e permite a fase de ilusão e, depois, a de desilusão gradativa, a partir das falhas maternas, pois aqui não se espera que ela seja perfeitamente pontual em sua adaptação. Falhas maternas graves geram consequências por muitos anos e às vezes para sempre. A ilusão (e a confiança) de que os objetos são criados pelo bebê garantem-lhe a ilusão de onipotência inicial que se tornará a base para uma boa relação com a realidade, fazendo surgir um mundo ilusório, que não é nem realidade interna nem externa, constituindo-se, assim, o espaço transicional habitado por fenômenos transicionais, até que a relação com a realidade se estabeleça.

O excesso de falhas maternas criam uma cisão entre o verdadeiro e o falso self, sendo que este se desenvolve com base na submissão à realidade externa de forma passiva, impedindo o viver de forma criativa. O falso self, defensivo e adaptativo fica em evidência, ocultando o verdadeiro self. A cisão varia de graus menos intensos a graus mais intensos, onde se encontra a esquizofrenia.

Winnicott afirma que o bebê tem uma “criatividade potencial” que se mostra no ato criativo, na área transicional. Esta criatividade potencial está é reconhecida pela sensação individual de realidade da experiência e do objeto, nesta fase de dependência absoluta: “O mundo é criado de novo por cada ser humano, que começa o seu trabalho no mínimo tão cedo quanto o momento do seu nascimento...”. Logicamente, isso depende da mãe, que lhe apresenta o objeto que está sendo criado.

Quanto à integração, há um estado de não-integração (no útero), uma ausência de unidade ou globalidade no espaço e no tempo, a partir do qual a integração de produz. Neste estágio não há consciência. Inicialmente, a integração se produz por breves momentos ou períodos, até que se transforma, gradualmente, em fato. Apesar de haver uma tendência biológica em direção a ela, o bebê precisa de um ambiente materno de apoio que lhe dê uma noção de continuidade no espaço e no tempo. “O bebê se desmancha em pedaços a não ser que alguém o mantenha inteiro. Nestes estágios o cuidado físico é um cuidado psicológico”. Tais cuidados se tornam memória, que gera confiança, possibilitando uma diminuição da dependência. A falha materna excessiva   pode gerar uma desintegração que ocorre como defesa organizada contra uma exacerbação da ansiedade, desencadeando patologias.

Melanie Klein e Winnicott.

De fato, há pontos convergentes e divergentes entre MK e W. Ambos afirmam que o bebê vivencia ansiedades provenientes de fonte internas e externas. No entanto, para MK elas são provenientes da ação da pulsão de morte enquanto que para W, dos impulsos instintivos. Ambos afirmam que o bebê, tomado por excessiva ansiedade, projeta-a para fora, “criando” um ambiente externo persecutório. MK vê como primeira fonte de ansiedade o ato do nascimento, sentido pelo bebê como um ataque por forças hostis; W, como resultado de um ambiente materno insuficiente. Enquanto que MK afirma a relação objetal com a mãe desde o início da vida, W afirma que bebê e mãe são uma só realidade, indistinguíveis inicialmente. No entanto, ambos afirmam que as primeiras experiências do bebê com a alimentação e cuidados são fundamentais para a capacidade de se relacionar bem com os objetos. Para ambos o seio é o objeto parcial ou inicial (primeira mamada). MK afirma que o bebê dirige ao seio os impulsos libidinais e agressivos, correspondentes à pulsão de vida e pulsão de morte. Já W, quanto ao “amor impiedoso”, afirma que a agressividade ou destrutividade é intrínseca à satisfação instintual, e é não intencional, inicialmente, até a etapa do concern. Para MK gratificação e frustração estimulam amor e ódio, estes dirigidos ao seio bom e mau. W também afirma a importância da gratificação por parte da mãe suficientemente boa, mas são liga o ódio à frustração. Para ele a agressividade é própria do amor impiedoso. Me afirma que no estágio inicial a ansiedade persecutória é, em alguma medida, contrabalançada pela relação do bebê com o seio bom. W afirma o mesmo, com outra linguagem, dizendo que o cuidado materno é fundamental para que o bebê, num excesso de ansiedade, não crie uma ambiente persecutório que pode, até mesmo, se tornar delirante. MK tem a cisão como um mecanismo que visa manter bem separado o seio persecutório do seio ideal e a experiência de frustração da gratificação, correspondendo a uma cisão do objeto e dos sentimentos em relação a ele. W vê a cisão do ego ligada à desintegração, consequência de uma maternagem insuficiente: o bebê “se quebra” sem o apoio egóico da mãe. A integração, para MK, ocorre a partir do amor pelo objeto, que deve predominar sobre os impulsos destrutivos (pulsão de vida sobre pulsão de morte). Winnicott apoia o processo de integração – muito mais primitivo que em MK – no holding e handling maternos, dando ao bebê a sensação de continuidade no espaço e no tempo. Ambos afirmam que faz parte da complexidade da vida emocional arcaica uma multiplicidade de processos que operam simultaneamente. Ambos afirmam a posição depressiva. No entanto, enquanto que em MK entra-se nela quando o ego - que já é mais integrado e capaz de se responsabilizar por sua destrutividade - passa a perceber o objeto como inteiro; assim, dá-se conta de que dirigiu a sua destruição ao objeto bom, danificando-o, na fantasia. Isso faz surgir a culpa e a necessidade de reparar os danos causados ao objeto. O sentimento que prevalece é a culpa. Para W a posição depressiva é resultado da tomada de consciência (concern) da ambivalência; no amor impiedoso, a agressividade e a destrutividade foram dirigida ao mesmo objeto de amor.

¹Padre e abade do Mosteiro da Trindade em Monte Sião/MG e aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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