Desenvolvimento de uma criança

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Por Sueli Kozue Matsuki1

Neste documento está redigido o resumo do texto de Melanie Klein sobre Desenvolvimento de uma criança (1921). Deve ser levado em consideração que a questão temporal do texto se remete à época em que foi escrito bem como o texto está em 1ª pessoa, correspondente à Melanie Klein:

O desenvolvimento de uma criança se divide em duas partes. A primeira demonstra que a educação sem esclarecimentos pode causar a repressão excessiva na mente da criança é a segunda mostra que a mente da criança já possui por si só fortes tendências para a repressão. Ela acredita que a análise de crianças pode evitar e curar a doença mental. No artigo "Desenvolvimento de uma Criança", é defendido que deve ser permitido às crianças, os esclarecimentos de ordem sexual ja nós primeiros anos de vida para se evitar doenças a posteriori. Nesse artigo é relatado experiências vividas por Melanie Klein. Em um dos casos, um menino de quatro anos e nove meses tinha várias indagações, tais como: "Onde eu estava antes de nascer?", "Como as pessoas são feitas?" E quando não se satisfazia com a respostas recebidas da mãe, ele procurava outra resposta e em determinado momento até experimentou fazer um troca de pais porque se satisfez mais com a resposta recebido pela "Senhora L" do que com a resposta recebida da própria mãe. Esse fato mostra que a criança usa de fantasias para tentar entender o que ainda não tem conhecimento. 

Até o momento do presente estudo, é possível distinguir três períodos no desenvolvimento mental de uma criança, partindo do momento que em que ela conseguiu se expressar fluentemente: o período que antecedeu ao surgimento das perguntas sobre o nascimento, o segundo período, que tem início com essas perguntas e termina com a solução da ideia da divindade; e o terceiro período, que acabara de se iniciar.

No terceiro período, a força da necessidade de fazer perguntas continua forte, porém agora direcionada ao nascimento, mas não somente ao seu, passa a expandir para o nascimento, por exemplo, de animais. A partir da pergunta: "Como as crianças são feitas?", desenvolve-se uma pesquisa sobre a existência em geral.

Posteriormente nasce o Interesse por fezes e urina: fica maravilhado com a "caca" que sai de seu corpo e confirma com sua mãe que ela tem faz isso, porque se ela não fizer, ninguém mais faria, o que configura o complexo de Édipo, ou seja, a mãe é a personificação do ideal do Ego.

A criança passa pela fase do Princípio da realidade. Faz as seguintes descobertas: nem sempre a mãe e o pai tem a mesma opinião e que de vez em quando os pais também fazem coisas erradas.

Há manifestação da necessidade de ter os limites de seus direitos e poderes definidos com clareza.

Ainda assim, suas perguntas e comentários provam diversas vezes que houve apenas uma redução e que ainda se dão lutas entre o senso de realidade embrionário e o seu profundo sentimento de onipotência – ou seja, entre o princípio de realidade e o princípio do prazer – o que frequentemente leva a formações de compromisso.

Nos desejos de Fritz era possível sentir a onipotência, pois expressava o desejo de satisfazer sua vontade naquela hora, não depois. Em alguns momentos ele demonstrava uma certa adaptação às noções de possibilidade e realidade. Porém era possível verificar também atitude de ambivalência, pois apesar de às vezes ficar contente ao constatar que o papai e a mamãe também não sabem alguma coisa, em outras ocasiões este fato lhe causa desagrado e ele tenta modifica-lo através de provas em contrário. Essa ambivalência é explicada pelo fato de o menino colocar a si mesmo no lugar do pai poderoso (que espera ocupar um dia) , identificando-se com ele ao mesmo tempo em que procura se livrar do poder que restringe o seu ego – sem dúvida também é responsável por esse comportamento em relação à onisciência dos pais.

A necessidade premente de adquirir novo conhecimento se desenvolveu precocemente em Fritz, estimulando seu sentido de realidade e o declínio da onipotência.

Fritz tinha também o otimismo altamente desenvolvido, em determinadas situações era maior que a realidade, e assim sempre achava que seus amigos nunca lhe fariam nenhum tipo de mal; porém em determinada situação teve uma grande desilusão que encadeou nele sentimentos agressivos. Contudo, ao arranjar novos amiguinhos ele pareceu ter superado essa história.

Ser honesto com as crianças e responder com franqueza todas as suas perguntas traz uma liberdade interna que influencia o desenvolvimento mental de forma profunda e benéfica. Isso protege o pensamento da tendência à repressão, isto é, do retraimento da energia pulsional responsável por parte da sublimação, que é o principal perigo que o ameaça. Também evita a repressão paralela de associações ideacionais ligadas aos complexos reprimidos, através da qual a sequência do pensamento é destruída.

Ao examinarmos o dano impingido à capacidade intelectual, isolando certas associações do livre intercâmbio do pensamento, creio que é necessário levar em consideração o tipo de dano sofrido: em que dimensão os processos de pensamento foram afetados e até que ponto a direção do pensamento, isto é, sua extensão e profundidade, foi claramente influenciada. O tipo de dano que, neste período de formação do intelecto, e responsável pela aceitação de idéias no consciente ou sua rejeição como algo insuportável tem grande importância, pois este processo se torna um protótipo para o resto da vida. O dano pode ocorrer de tal maneira, que a “penetração mais profunda” e a “quantidade” contida na dimensão da extensão podem estar intrincadas, de certa maneira, uma na outra.

Se a curiosidade natural e o impulso de inquirir sobre fatos e fenômenos desconhecidos ou apenas conjeturados encontram uma resistência externa. Então indagações mais profundas (onde a criança teme inconscientemente se deparar com coisas proibidas e perversas) são igualmente reprimidas. Isso afeta o impulso de investigar a fundo qualquer questão mais complexa, que fica inibido. Estabele-ce, então, uma aversão à investigação cuidadosa, o que faz com que o prazer inato e irreprimível de fazer perguntas se ocupe apenas daquilo que se encontra na superfície, levando, assim, a uma curiosidade puramente superficial. Ou, pode-se então, desenvolver o tipo de pessoa dotada que encontramos com muita frequência no nosso dia-a-dia e no campo da ciência que apesar de inteligente e possui grande número de idéias, não consegue levar adiante a questão mais profunda de sua execução. Se a criança conseguiu vencer certo período de inibição no que diz respeito a esse impulso investigativo, fazendo com que ele permanecesse ativo ou retornasse mais tarde, ela pode, tolhida agora por aversão a enfrentar novas questões, direcionar toda a eficiência da energia que lhe resta para os aspectos mais profundos de alguns problemas específicos. É dessa maneira que se desenvolve o tipo de “pesquisador” que atraído por determinado problema, dedica a ele o trabalho de uma vida inteira, sem desenvolver nenhum interesse particular fora da esfera limitada que lhe satisfaz. Um outro tipo de homem culto é o investigador que, possuindo, grande poder de penetração, consegue desenvolver um conhecimento verdadeiro e fazer novas e importantes descobertas, mas é um total fracasso no que diz respeito às grandes e pequenas realidades da vida cotidiana, ou seja, que não possui o menor senso prático. Para explicar esse fato, não basta dizer que ao ficar absorvidos por grandes tarefas, ele deixa de dirigir sua atenção para as pequenas.

O impulso para o conhecimento e o senso de realidade são ameaçados por outro perigo iminente: não um retraimento, mas uma imposição, o inculcamento de idéias prontas, impingidas de tal forma que o conhecimento que a criança tem da realidade não ousa se rebelar e nunca tenta sequer chegar às suas próprias inferências e conclusões sendo afetado de forma definitiva e prejudicial.

Aquele que se desenvolve numa oposição a alguém numa oposição a alguém não é menos dependente do que aquele que se submete de forma incondicional à autoridade; a verdadeira independência intelectual se forma entre estes dois extremos. O conflito que o senso de realidade embrionário tem que travar contra a tendência inata à repressão, o processo através do qual o conhecimento do indivíduo é dolorosamente adquirido (semelhante à maneira como se dão as aquisições da ciência e da cultura na história da humanidade), juntamente com os obstáculos inevitáveis encontrados no mundo externo, tudo isso já é mais do que suficiente para substituir a resistência que deverá agir como estimulo ao desenvolvimento, sem por em risco a sua independência.

Apesar da experiência e o insight adulto terem encontrado a solução para algumas das questões proibidas e aparentemente sem resposta da infância (condenadas, portanto, à repressão), isso não dissolve os obstáculos levantados diante do pensamento infantil, nem faz com que eles percam sua importância. Pois apesar de mais tarde o indivíduo adulto aparentemente conseguir superar as barreiras erguidas diante de seu pensamento infantil, a maneira que se encontra para lidar com suas limitações intelectuais, seja o desafio ou o medo – continua a ser a base que orienta e dá forma ao seu pensamento, e permanece intocada pelo seu conhecimento posterior.

A submissão permanente ao princípio de autoridade, a quantidade de dependência e limitação intelectuais que se tornam indeléveis, estão baseadas neste primeiro e importantíssimo contato com a autoridade, na relação entre os pais e a criança. A sua própria sensação de onipotência faz com que a criança atribua também ao seu próprio ambiente. Assim, a idéia de Deus, que dá a autoridade a mais total onipotência, vai ao encontro do sentimento de onipotência, vai ao encontro do sentimento de onipotência da própria criança, ajudando a estabelecê-lo e dificultando seu declínio. Sabemos que também nesse ponto o complexo dos pais é importante e que a maneira como o sentimento de onipotência é fortalecido ou destruído pela primeira afeição séria da criança determina seu desenvolvimento enquanto um otimista ou um pessimista, assim como a vivacidade e a iniciativa ou o ceticismo paralisante de sua mentalidade. Para que o resultado do desenvolvimento não seja a utopia sem limites nem a fantasia, mas o simples otimismo, é preciso que o pensamento execute em tempo uma correção.

II. ANÁLISE DE CRIANÇA PEQUENAS

O aprendizado decorrente da análise de adultos e crianças pode ser aplicado ao estudo da mente de crianças com menos de seis anos, pois é fato bem conhecido que a análise das neuroses revela traumas e fontes de danos em acontecimentos, impressões ou desenvolvimentos que ocorreram numa idade muito inicial, ou seja, antes dos seis anos.

O objetivo é evitar os fatores que a psicanálise nos ensinou a considerar extremamente danosos à mente das crianças. Nesse ponto, é estabelecida a necessidade incondicional de que a criança, desde o seu nascimento, não compartilhe do quarto dos pais; também teremos menos exigências éticas compulsórias em relação à pequena criatura em desenvolvimento do que as pessoas tiveram conosco. Devemos deixar a criança agir naturalmente para que possamos analisar suas ações.

Aparentemente, apesar de todas as medidas educacionais que visam, entre outras coisas, satisfazer sem reservas a curiosidade sexual, é comum essa necessidade não ser expressa com liberdade. Essa atitude negativa pode tomar as formas mais variadas, até chegar a uma absoluta má vontade em aprender. Algumas vezes, ela se manifesta num interesse deslocado para alguma outra coisa, que apresenta com frequência um caráter compulsivo. Esta atitude sé se estabelece depois de um esclarecimento parcial e neste caso, ao invés do vivido interesse exibido até então, a criança passa a manifestar forte resistência em aceitar novos esclarecimentos e simplesmente os rejeita.

É raro encontrar uma criança que não apresente alguns traços neuróticos. É o desenvolvimento posterior desses traços assim como sua multiplicação, que constitui a doença. Fiquei particularmente espantado com a aversão do menino a ouvir histórias, totalmente oposta ao prazer que demonstrava antes.

Quando comparei o gosto altamente estimulado de fazer investigações, que se seguiu ao esclarecimento parcial e que depois se converteu em ruminações ou indagações superficiais, com a posterior aversão a fazer perguntas e a relutância até de ouvir histórias, e quando, além disso, também me lembrei de algumas perguntas que acabaram se estereotipando, fiquei convencida de que o forte impulso investigativo da criança tinha entrado em conflito com sua igualmente poderosa tendência à repressão.

A partir da tendência geral de suas fantasias e jogos, somada a comentários eventuais, tive a impressão de que parte dos complexos do menino tinham se tornado conscientes ou pelo menos pré-conscientes e julguei que isso era o bastante.

Já haviam se passado dois meses desde que eu começara a lhe fornecer interpretações ocasionais. Nesse ponto, minhas observações foram interrompidas por um intervalo de mais de dois meses. Durante essa época, a ansiedade (medo) ebio à tona, isso já fora pressagiado pela recusa do menino em continuar os jogos de ladrões e índios de que tanto gostava ultimamente, quando estava brincando com outras crianças. A ansiedade que se manifestava agora, portanto, pode ter sido um dos sintomas tornados evidentes pelo progresso da análise. Ela provavelmente também se devia às tentativas de Fritz de reprimir com mais força tudo aquilo que estava se tornando consciente.

Depois desse período de aproximadamente seis semanas em que a observação foi retomada juntamente com a análise (que se concentrou principalmente nos sonhos de ansiedade), a ansiedade desapareceu por completo. A brincadeira e a sociabilidade não deixavam nada a desejar.

Fritz passou por uma fobia de crianças de rua sozinho, pois a análise foi interrompida por causa de uma viagem. Porém, também apresentou, nessa época, uma forte relutância em continuar a análise, além de uma aversão a contar histórias e ouvir contos de fadas (provavelmente como consequência dessa tentativa de se curar sozinho – ele me garantiu com orgulho que agora não tinha medo de nada!). A presença de uma resistência tão ativa à análise e a relutância de ouvir contos de fada me parecem o bastante para prever que sua educação provavelmente oferecerá outras ocasiões para a tomada de medidas psicanalíticas de vez em quando.

Os danos e as inibições que afetam o desenvolvimento de uma criança são inumeráveis, sem falar nos indivíduos que mais tarde tornam-se vítimas da neurose.

Ainda que reconheçamos a necessidade de introduzir a psicanálise na educação da criança, isso não significa deixar de lado princípios educacionais que até agora se mostraram eficientes e são aprovados de forma geral.

Pude ainda aprender outra coisa com esse caso: as vantagens, ou mesmo, a necessidade de introduzir a análise bem cedo na educação, a fim de preparar relação com o inconsciente da criança assim que for possível entrar em contato com seu consciente. Assim, é provável que se possa remover facilmente as inibições ou traços neuróticos logo que eles começam a se desenvolver. Não há dúvida de que uma criança normal de três anos e provavelmente crianças ainda mais novas, que muitas vezes demonstram interesses tão vividos, já tem a capacidade intelectual para compreender as explicações que lhe são dadas tão bem quanto qualquer outra coisa.

Freud afirma que “não é possível traçar uma linha bem definida entre pessoas neuróticas e normais – quer se trate de crianças ou adultos – que a nossa concepção de doença é exclusivamente prática e uma questão de acumulação, que é preciso que a predisposição e as eventualidades da vida se combinem para que os limites dessa acumulação sejam ultrapassados e que, como consequência, vários indivíduos passam constantemente da classe das pessoas saudáveis para a dos pacientes neuróticos”. Para Freud toda neurose do adulto é calcada em uma neurose que ocorreu na sua infância, mas não foi severa o bastante para chamar atenção e ser reconhecida como tal.

O medo latente da criança, que depende da repressão, é mais fácil de ser explicado com sua ajuda e pode ser tratado de forma mais cuidadosa através da analise.

1Aluna do Curso de Formação em Psicanálise da EPP.

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