Identificação projetiva - alguns aspectos clínicos

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Por Luana Menezes Guedes¹

É dominada pela necessidade do bebê de afastar ansiedades e impulsos, através da cisão do objeto - originalmente a mãe, bem como do self, da projeção dessas partes escindidas para dentro de um objeto, que é então sentido como, ou identificado como - essas partes escindida, o que colore a percepção que o bebê tem do objeto e sua subsequente introjeção.

Ela examinou os múltiplos objetivos dos diferentes tipos de identificação projetiva, como por exemplo o de escindir e se livrar de partes indesejada do self que causam ansiedade ou dor, o de projetar o self ou partes do self para dentro de um objeto, para dominá-lo e controlá-lo e assim evitar qualquer sentimento de separação, o de penetrar em um objeto para apoderar-se de suas capacidades, o de invadir, a fim de danificar ou destruir o objeto. 

À medida que o indivíduo se desenvolve, seja através do desenvolvimento normal ou de tratamento analítico, essas projeções diminuem, ele se torna mais capaz de tolerar sua ambivalência, seu amor, seu ódio e sua dependência dos objetos. Ele se move em direção a posição depressiva. Esse processo pode ser facilitado na infância se a criança tiver um ambiente que a apoie, se a mãe for capaz de tolerar e conter as projeções da criança e, intuitivamente, compreender e tolerar seus sentimentos. 

Nas suas formas iniciais, a identificação projetiva não tem consideração pelo objeto e , na verdade, frequentemente ela é anti-consideração, quando se destina a dominar, independentemente do custo para o objeto. 

A identidade projetiva pode ter a impressão, de fantasia, armadilha ou claustrofóbico. 

Identifiquei em um paciente três ou quatro diferentes aspectos: o ataque a mente do analista, uma espécie de invasão total, como no fragmento de sonho que acabei de relatar, uma invasão mais parcial e a usurpação de aspectos ou capacidade do analista e finalmente, o depósito de partes do self, particularmente partes inferiores, dentro do analista. 

A INVEJA NA VIDA COTIDIANA - Betty Joseph
A inveja envolve basicamente duas pessoas, a inveja que a outra pessoa possui, ou suas capacidades, conquistas, qualidades pessoais etc. em maior ou menor grau, uma qualidade espoliadora, ou pelo menos hostilidade para com as boas capacidades da outra pessoa. Mas na inveja a esfoliação se faz por ódio, e parece não haver nenhuma circunstância atenuante. 

A inveja está ligada à voracidade de obter algo, desconsiderando o custo para essa pessoa de quem ela quer esse algo e reconhece que há algo de bom a ser obtido, algo que ela possa tomar posse, de forma que se torne parte de si própria. 

O indivíduo invejoso não consegue elogiar ou valorizar nada em outro indivíduo, mas só acha dúvidas e encontra sempre uma razão para duvidar da outra pessoa ou derrubá-la. 

A pessoa invejosa pode espoliar literalmente, injuriando, danificando ou ferindo outra pessoa ou suas posses, ou pode espoliar por meio de injúrias psicológicas, ferindo os atributos ou conquistas de outra pessoa, por meio de críticas ou provocações. Assim, a pessoa verdadeiramente invejosa não pode tolerar que  algo de bom lhe seja dado por outra pessoa. Ela não pode usufruí-lo, reconhecerá de má vontade suas boas qualidades, seu valor, e será incapaz de experimentar e de expressar gratidão. 

A pessoa realmente invejosa não pode aproveitar o vem de outra pessoa e não pode sentir gratidão, o que significa que sua capacidade de ter prazer e de amar sofre graves interferências. Nós sabemos que construímos nosso caráter colocando dentro de nós introjetando, nossas relações iniciais com nossos pais e figuras próximas de nossa infância de forma como experimentamos, e a maneira com que sentimos a nosso respeito está de acordo com o mundo que construímos e o nosso interior, nosso mundo interno. Se a inveja, qualquer que seja a razão, impede que o indivíduo construa relacionamentos bons, calorosos e confiáveis, todo o seu mundo interno, e portanto seu caráter, será influenciado e é provável que ele fique, de acordo com isso, inseguro. 

Um modo de evitar a inveja excessiva é idealizar a pessoa que provoca.  Restringir contatos, evitar áreas que estimulem rivalidade e inveja, é outro modo importante de se defender contra a inveja, e um modo bastante familiar. 

DEPRESSÃO NO ESQUIZOFRÊNICO - Hanna Segal
O curso do desenvolvimento, os esquizofrênicos alcançam a posição depressiva e, sentindo-a intolerável, lidam com ela projetando as suas ansiedades depressivas. Isto só pode ser feito pela projeção de grande parte de seu ego para dentro de um objeto, isto é, por identificação projetiva. Parte do ego é escindida e projetada para dentro de um objeto, com consequente perda desta parte para o ego, bem como alteração na percepção do objeto. 

No decurso do tratamento psicanalítico do esquizofrênico, é muito importante colocá-lo em contato com seus sentimentos depressivos e com o desejo de reparação que eles se originam. Á medida que o tratamento progride, e após alguma análise das ansiedades paranoides e dos processos de cisão e idealização, o paciente vem a sentir, cada vez mais frequentemente e por breves espaços de tempo, ansiedades depressivas. Ele geralmente procura livrar-se destas ansiedades através de identificação projetiva. 

ELABORAÇÃO NA CONTRATRANSFERÊNCIA - Irma Brenman Pick
Temos três fatores a considerar: primeiro, a perturbação emocional do analista, pois ele pode ter que lidar com isto silenciosamente em si mesmo antes de poder tomar suficiente distância e estar livre para compreender os outros dois fatores; depois, o papel do paciente em ocasioná-la e finalmente, o efeito da perturbação emocional do analista sobre o paciente. A contratransferência está funcionando como um delicado aparelho receptor. 

O processo de encarar e elaborar nossa própria experiência, tanto a de querer conhecer quanto a de temer o conhecimento (+K e -K, nos termos de Bion) facilita, creio eu, um contato mais profundo e mais empático com essas partes do paciente e com seus objetos internos. Se não somos capazes de levar em consideração, nossas próprias reações conflitivas, corremos o risco de atuar o que deveríamos interpretar, isto é, de sequestrarmos todas as boas qualidades e de projetarmos para dentro do outro, todo mal; podemos nos comportar como se fossemos capazes de enfrentar impunemente todos os acidentes ou vicissitudes da vida. 

A projeção que o paciente faz para dentro do analista pode ser sentida por ambos como uma invasão indesejável, e toca em questões da vida mental nas quais as fronteiras entre o interno e o externo, a fantasia e a realidade, o self e o objeto, tornam-se problemática em vários níveis. No caso de pacientes suicidas, anoréticos ou histerias malignas, tais problemas de manejo podem ter implicações de vida e morte. É claro que nessas situações o paciente projeta maciçamente partes do self e objetos internos para dentro do analista, tais pacientes também provocam no analista a sensação de estar desemparado e à mercê do comportamento vingativo e explorador do paciente, enquanto este permanece impenetrável às necessidades do analista. 

CONTRATRANSFERÊNCIA NORMAL E ALGUNS DE SEUS DESVIOS - Roger Money-Kyrle
Penso que a preocupação pelo bem-estar do paciente origina-se da fusão de duas outras tendências básicas: a reparadora, que contrabalança em todos nós a destrutividade latente, e a parental. 

Ora para um pai, o filho representa, pelo menos a parte, um aspecto do self. E isto me parece importante. Pois é somente porque o analista pode reconhecer no paciente seu self inicial já analisado que ele pode analisar o paciente. Sua empatia e insight, distintos de seu conhecimento teórico, dependem deste tipo de identificação parcial. Na medida que o paciente deve representar os objetos danificados da própria fantasia inconsciente do analista, que estão ainda ameaçados pela agressão e precisam de cuidado e reparação. 

Nosso superego é é amigável e de ajuda, podemos tolerar nossas próprias limitações sem sofrimento indevido, e aceitar a culpa, fiquemos emperrados com um paciente introjetado. Mas se o superego é severo, sensação de fracasso como expressão da culpa persecutória ou depressiva, o paciente projeta, como uma figura incompreensível no mundo externo. 

O COMPLEXO DE ÉDIPO INVISÍVEL - Edna O'Shaughnessy
Leon e o Sr. A pertencem a um grupo de pacientes cujo complexo de Édipo não é parte de um impulso normal do desenvolvimento, com desejo sexual e rivalidade, com ciúmes em primeiro plano. Para eles a percepção de um par edípico é forçada sobre eles, e isto porque há defesas que estão continuamente operante contra dano inicial ainda urgente. Esta percepção é quase intolerável e eles fazem uso de defesas adicionais para deixá-la e mantê-la invisível. 

Acima de tudo, porque a identificação projetiva para dentro do objeto tornou-se sem modo de dar conta de relações perturbadas com seu objetivo original, a percepção de uma figura combinada expulsa-os de seu abrigo projetivo no interior do objeto.  Porque a falta ao paciente uma figura internalizada que pode conter e modificar este estado mental quase esmagador, ele sente-se só com uma carga psíquica intolerável e um caos iminente. Para aliviar sua psique e entrar novamente em seu objeto o paciente, em fantasias, insere-se no meio da figura combinada, separa o casal e projeta-se para dentro de um ou outro do par separado. Estas relações exclusivas, no entanto, diferem significativamente das relações pré-edípicas mais iniciais. 

UMA ABORDAGEM CLINICA PARA A TEORIA PSICANALÍTICA DAS PULSÕES DE VIDA E DE MORTE: UMA INVESTIGAÇÃO DOS ASPECTOS AGRESSIVOS DO NARCISISMO - Herbert Rosenfeld 

Freud enfatizou que a pulsão de morte ficava silenciosamente dirigindo o indivíduo para a morte, e que somente através da atividade da pulsão de vida é que esta força mortal era projetada para fora e aparecia sob a forma de impulsos destrutivos dirigidos contra objetos no mundo externo.  A teoria de Freud sobre o narcisismo primário tenha se baseado originalmente na ideia de que o indivíduo dirige seu libido para o self, e no narcisismo secundário, há uma retirada da libido do objeto para o self. 

Abraham nos pacientes narcísicos psicóticos, ele assinalava a ativa superioridade e frieza do narcisista e interpretava a atitude agressiva negativa na transferência. Encontrou, nesses pacientes, o narcisismo mais pronunciado, e enfatizou a hostilidade e desconfiança escondidas por trás de uma aparente avidez em cooperar. 

Reich enfatizou, ao contrário de Freud, que as atitudes narcísicas e os conflitos latentes do paciente, que incluem sentimentos negativos, podiam ser ativados e virem à tona na análise, e então trabalhados. 

Melanie Klein em 1958 tinha observado em crianças pequenas uma luta constante entre uma irrefreável necessidade de destruir seus objetos e um desejo de preservar. Para se defender desta ansiedade, o ego primitivo usa dois processos: Parte da pulsão de morte é projetada para dentro do objeto externo, que assim se torna um perseguidor, enquanto a parte da pulsão de morte que é retirada no ego volta sua agressão contra o objeto perseguidor. Através dos aspectos negativos infantis, se deparou com a inveja primitiva. Na transferência isso se manifesta na necessidade do paciente de desvalorizar o trabalho analítico que achou útil. 

TRANSFERÊNCIA: A SITUAÇÃO TOTAL - Betty Joseph
Strachey (1934) usando as descobertas de Melanie K. sobre a maneira pela qual projeção e introjeção constroem e colorem os objetos internos do indivíduo, mostrou que o que está sendo transferido não são, essencialmente, os objetos externos do passado da criança, mas os objetos internos, e que a maneira pela qual esses objetos são construídos nos ajuda a compreender como o processo analítico pode produzir mudança. 

Muito de nossa compreensão da transferência surge através da nossa compreensão de como nossos pacientes agem sobre nós para que sintamos coisas pelo mais variados motivos: como eles tentam nos atrair para dentro de seus sistemas defensivos: como atuam act out inconscientemente conosco na transferência, tentando fazer com que atuemos com eles: como transmitem aspectos de seu mundo interior, desenvolvidos desde a infância, elaborados na vida infantil e adulta, experiência muitas vezes para além da utilização de palavras, que frequentemente só podemos apreender através dos sentimentos provocados em nós, através de nossa contratransferência, usada no sentido amplo da palavra, uma ferramenta essencial no processo analítico. 

Se o analista luta realmente, nessas situações, para dar interpretação detalhada, então ela estará vivenciando o próprio sistema defensivo do paciente, dando um pseudo-sentido ao incompreensível, ao invés de tentar entrar em contato com a experiência da paciente de viver num mundo incompreensível. 

O PACIENTE DE DIFÍCIL ACESSO - Betty Joseph
Desde o início no tratamento deste grupo de pacientes inacessíveis é que o que parece ser uma aliança chamado de compreensão é, na verdade, anti compreensão. Se considerarmos nossa contratransferência, tudo parece um pouco fácil demais, agradável e sem conflitos, ou emergem sinais de conflitos, mas que de certo modo são rapidamente dissipados. 

A parte paciente, do paciente permanece escindida, e é esta parte que parece mais imediatamente necessitar auxílio, ser mais infantil, mais dependente e vulnerável. Este tipo de cisão pode ser encontrado em diferentes tipos de paciente, e pode ser mantido por diferentes razões, relacionadas, por exemplo, a ansiedade inconsciente acerca de sentimentos infantis, ou sentimentos de dependência, rivalidade e inveja intensas, mas geralmente afastadas das figuras parentais, dificuldades relacionadas à separação, etc. 

Em tais situações considero imperativo que o analista espere, trabalhe lentamente, suporte as críticas do paciente e evite quaisquer interpretações que possam sugerir que o problema está nas projeções da ansiedade do paciente. É importante mostrar, em primeiro lugar, o uso que o paciente fez do que ele acreditou estar correndo na mente do analista. 

Quero agora considerar um outro método de se manter uma inacessibilidade, em que novamente a parte do ego que precisamos que trabalhe conosco fica escindida e, além disso, torna-se particularmente indisponível por ter projetada para dentro de objetos. 

Tecnicamente, penso que primeiro passo é o analista estar ciente da identificação projetiva ocorrendo e estar disposto a suportá-lo o tempo suficiente para vivenciar a parte perdida do paciente.

NOTAS SOBRE A FORMAÇÃO DE SÍMBOLOS - Hanna Segal
A formação de símbolos é uma atividade do ego tentando lidar com as ansiedades mobilizadas pela sua relação com o objeto, primordialmente o medo de objetos maus e o medo da perda ou inacessibilidade dos objetos bons. Perturbações na relação do ego como objetos refletem-se em perturbações na formação de símbolos. Em particular, perturbações na diferenciação entre o ego o objeto levam a perturbações na diferenciação entre símbolo e o objeto simbolizado e, portanto, ao pensamento concreto característicos das psicoses. Não apenas o conteúdo próprio do símbolo, mas o próprio modo pelo qual os símbolos são formados e utilizados parecem-me refletir precisamente o estado de desenvolvimento do ego e seu modo de lidar com seus objetos. 

O objeto do ego é a união total com o objeto ideal e a aniquilação total do objeto mau, assim como das partes más do self. O pensamento onipotente predomina e o sentido de realidade é intermitente e precário. O conceito de ausência, o ego se sente assaltado pela contraparte do objeto bom, o objeto ou objetos maus. 

Os primeiros símbolos, no entanto, não são sentidos pelo ego como símbolos ou substitutos, mas como sendo o próprio objeto original. São tão diferentes dos símbolos formados mais tarde que penso merecem um nome próprio, equação simbólica.  

MUDANÇA PSÍQUICA E PROCESSO PSICANALÍTICO - Betty Joseph
Assim, por exemplo, um paciente cujo equilíbrio depende em grande parte da manutenção de uma estrutura altamente narcísica será incapaz de deixar que o ajudemos adequadamente, ou de receber nossas interpretações, e por exemplo, tenderá a apropriar-se delas ou repeti-las de modo intelectual, ou mesmo alterá-las. 

Em outro paciente, o método básico de manter o equilíbrio pode ser mais obviamente fóbico, defendendo-se da ansiedade por meio de várias evitações, de auto-limitações e de defesa correlatas. 

Portanto, são os movimentos e mudanças no momento a momento que estamos analisando o tempo todo, e esse é o material que esperamos que finalmente conduza á mudança psíquica positiva e duradoura. 

Freud, "onde havia id, que haja ego", o que implica não apenas tornar os impulsos conscientes, mais torná-los também disponíveis para serem usados pelo ego, permanecendo sob seu controle. 

O indivíduo, ou o bebê, tenta lidar com a ansiedade causada por sentimentos dolorosos ou conflitantes e com partes perturbadoras do self, escindindo-os e projetando-os para dentro de outros objetivos (pessoas), aliviando-se assim deles. 

Que as mudanças numa sessão refletem as mudanças que ocorrem dentro do paciente, de modo constante em sua vida cotidiana, à medida que a ansiedade emerge, as defesas são mobilizadas, a imagem do analista se movimenta e o mundo interno se rearranja em conformidade com isso. É claro que as interpretações desempenham um papel de primeira ordem na estimulação dessa mudança, e não apenas porque proporcionam compreensão e insight. Elas frequentemente estimulam mudanças não da maneira que pretendíamos, nem do modo que pensávamos. 

Freud, em seu trabalho sobre relações de objeto, descreveu os vários estágios que a criança atravessa no curso de seu desenvolvimento, mas apenas com o próprio self, o que descreveu como narcisismo primário. 

Essa compreensão da identificação projetiva como operante desde o início da vida ilumina todo o tema do narcisismo e das relações de objeto narcísicas, abrindo assim a possibilidade de analisarmos mais plenamente essas condições. Klein pensava o narcisismo não como um estágio que precede as relações de objeto, mas como um estado para o qual o indivíduo se retira, no qual o self ou o corpo são sentidos como contendo um objeto idealizado, sendo então para esse self que o indivíduo se retira (1952a). A noção de identificação projetiva também confere uma nova dimensão à nossa compreensão do indivíduo que, como Freud descreveu, continua a amar," de acordo com o tipo narcísico*, o que ele próprio é, foi ou gostaria de ser". Em outras palavras, podemos ver agora que ele ama a outra pessoa porque projetou para dentro dela, em fantasia, partes de seu próprio self. A outra pessoa é então identificada a essas partes, e é isso que torna tão atraente para o indivíduo narcisista.

¹Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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