Uma breve abordagem sobre os autores pós-kleinianos

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Por Yuri Moreira Avallone¹

O objetivo deste trabalho é fazer uma leve abordagem do material trabalhado nos estudos sobre os Pós kleinianos, vamos tratar aqui apenas de partes dos artigos e não estes como um todo. Começando por Hanna Segal, dentro do artigo “Depressão no esquizofrênico”...

...ela nos traz entre outras abordagens uma que me chamou mais a atenção, Hanna Segal não interfere na sessão, não se envolve, fica sempre na sua posição de observadora, quer o paciente destrua seu consultório ou permaneça  calado, e é sobre esse silêncio que trataremos. Em alguns casos a fala do analista é levada pelo silêncio do paciente, esse silêncio algumas vezes causa na sessão um vazio, que pode parecer insuportável, e muitas vezes a fala do analista entra apenas para acabar com essa angústia. O analista deve suportar esse silêncio e o vazio trazido na sessão, pois esse vácuo pode ser no sentido de mostrar algo que está dentro do paciente, e quando é interrompido pelo analista impede que algo se manifeste.  

Trouxe dois casos que pude presenciar como ouvinte de supervisão, dos quais não entrarei em detalhes além do necessário para exemplificar o conteúdo do artigo tratado acima. Vamos ao primeiro, na supervisão do dia 15/08/16 às 19:10 o colega M. C. trouxe o caso de uma jovem de poucas palavras que falava o mínimo e se calava, permanecendo um silêncio sepulcral no setting; o analista por sua vez não suportado esse silêncio acabou por dirigir a análise por intermédio de perguntas que levou a paciente por uma direção onde ele tinha o desejo de ajudar, aliviando assim sua angústia (do analista).  O caro colega por não suportar esse silêncio pôs a perder a livre associação.

No segundo caso ocorrido na supervisão do dia 18/08/16 às 21:10, o colega L. foi convidado a falar e citou um caso em que o paciente falava muito pouco, tendo grandes intervalos de silêncio, o analista conseguiu suportar esse silêncio, controlou suas angústias de ter que falar algo para preencher o vazio criado na sessão. Ao terminar a sessão o paciente pediu para usar o banheiro, e quando saiu, em tom de riso falou ao analista, “ACABEI COM SEU SABONETE“, realmente ele tinha usado metade do frasco. O fato do colega ter suportado a angústia do silêncio mexeu com o paciente, na atitude de jogar o sabonete houve uma transferência.

Continuando com Hanna Segal, vamos falar sobre o artigo “Equações simbólicas”, onde o símbolo tem aspecto concreto, porque ele não está no lugar de algo, ele é algo. Ela nos traz que em algum momento não há separação entre sujeito e objeto, o símbolo não pode ser tratado como algo que está no lugar do objeto, mas sim como o próprio objeto. Temos aqui a diferença entre concretude e simbolização; para trazer mais luz ao artigo, ela nos dá o exemplo de um paciente, que para ele, tocar violino é a mesma coisa que se masturbar. Isso é típico da posição esquizoparanóide, principalmente pelo uso da identificação projetiva; conforme o sujeito caminha para a posição depressiva essa concretude vai dando lugar a simbolização, havendo a separação do sujeito e objeto.

Falaremos a seguir um pouco sobre os artigos de Betty Joseph, começando pelo artigo “Identificação Projetiva” ela nos diz que existe um ponto de equilíbrio nas diversas defesas do ego, a cisão, a idealização, a identificação projetiva. Se você mexer em um desses pontos acaba por mexer num todo, pode mexer na cisão e ter uma consequência no narcisismo e ou na onipotência e assim por diante. Neste artigo ela também nos traz que o paciente através da identificação projetiva envia para dentro do analista partes do self, atacando a própria percepção do outro, anulando o analista, não existe eu-outro e sim apena eu. Em seu artigo Betty Joseph nos traz um caso em que toda interpretação que fazia, o paciente dissolvia essa interpretação em pedaços, rearranjava da forma que lhe convinha e tomava essa interpretação como se fosse dele, como resultado disso em seu mundo de fantasia ele anula o analista, tirando-lhe toda a importância, isso é uma forte defesa contra a inveja. Ela também nos traz a identificação projetiva como comunicação do paciente para o analista, no caso do paciente N, durante uma sessão a analista começou a sentir desespero, e de repente toda a sessão mudou e houve progresso; esse desespero que sentiu não era dela e sim do paciente que estava lhe atacando com suas desesperanças, mas se ela não estivesse preparada para receber essa desesperança, se não soubesse o que fazer com essa desesperança, provavelmente fracassaria, é de extrema importância que o analista suporte essa dor, não entre em desespero e mantenha-se em sua posição. Entra aqui mais uma vez a importância do analista ser bem analisado, porque o analista mal analisado não vai conseguir separar o que é dele e o que é do outro e vai fracassar.

Continuando com Betty Joseph no artigo “O paciente de difícil acesso”. Vou tentar conceituar aqui o paciente de difícil acesso,  este perfil de paciente sempre divide a personalidade em duas, uma chamada de necessitada, que é a que o analista deve procurar atingir com suas interpretações e está muito bem escondida nesse tipo de paciente, mas o analista vai ter que acessar para que a sessão tenha um bom desenvolvimento. A segunda parte da personalidade é chamada de não colaborativa que é a que o inconsciente apresenta ao analista para tentar sabotar a sessão, então temos no mesmo paciente o self 1 e o self 2, quando o segundo self está presente acaba gerando uma confusão mental no analista. Betty Joseph nos tráz algumas situações de pacientes de difícil acesso.

Uma das situações é quando a sessão aparentemente fica muito fácil, confortável para ambos, o analista deve ficar atento a isso porque não existe análise sem conflito, se isso estiver acontecendo podemos dizer que há um conluio entre ambos, quando está muito fácil estamos nos relacionando com uma parte não colaborativa do self. Betty nos traz a intelectualização da sessão, e o analista pode perceber que a sessão está intelectualizada quando está falando sobre o paciente e não ao paciente, a fala do analista segue num sentido que não está atingindo os sentimentos do paciente. Há também o paciente que sutilmente manipula a sessão chamando a atenção do analista para uma área que deseja, notei um essa situação num caso trazido para a supervisão pela colega M. S no dia 07/07/16 20:00, onde a paciente tentou seduzir a analista, lágrimas nos olhos, lamentos  levando-a para onde queria, a analista chegou a ficar penalizada com isso. Citei aqui apenas as que me chamaram mais atenção, mas existem outras situações em pacientes de difícil acesso.  

“Transferência: a situação total” Betty Joseph. Neste artigo ela nos chama a atenção para a transferência como descreveu Melanie Klein em seu artigo “As origens da transferência” – “É minha experiência que, para se esclarecer os detalhes da transferência, é essencial que se pense em termos de situações totais transferidas para o presente, bem como em termos de emoções, defesas e relações objetais.” A autora diz que na situação clínica o analista deve prestar atenção nas emoções revividas pelo paciente na transferência, para poder identificar o que se repete, e também deve ficar muito atento às suas próprias emoções na contratransferência, que podem indicar algo em relação aos sentimentos de seu paciente, ou seja, estar atento a situação total. Da supervisão vou trazer apena um comentário feito à analista pelo supervisor no dia 11/07/16 às 19:20 “ A pepita de ouro numa sessão é o que acontece entre analista e paciente.”

Dando continuidade a Betty Joseph citaremos o artigo “A inveja na vida cotidiana”. A inveja envolve basicamente duas pessoas, e inveja-se o que a outra pessoa possui, suas qualidades, conquistas, capacidades. Neste artigo a autora vai nos chamar a atenção para o sentimento de inveja dentro da sessão. Dentro do setting, quando o paciente percebe que o analista pode ou o está ajudando, esse sentimento aparece, (porque a inveja tem horror a dependência) se manifesta de várias formas: destruir no outro o que eu não tenho, o paciente tenta fazer o analista acreditar que suas interpretações não significam nada, são inúteis, e que o analista não é bom e está ali a toa. Outra situação é a reação terapêutica negativa onde o paciente tende a piorar, porque piorando ele quer dizer que o analista não tem capacidade nenhuma. No caso trazido pelo colega L.R. na supervisão do dia 07/07/16 às 21:25, a paciente falava pelos cotovelos, tomando todo o tempo da sessão dando pouco espaço para o analista interpretar, e quando esse o fazia ela não acatava suas interpretações, a paciente demonstrou sentir angústia de castração, e tentou durante toda a seção mostrar para o analista que ele também é um castrado e que não pode ajuda-la.

Vamos falar a seguir de Roger Money-Kyrle e Irma B. Pick sucessivamente; Roger Money trouxe o artigo de 1955 “Contratransferência normal e alguns de seus desvios” neste material Roger nos diz que “pois é somente porque o analista pode reconhecer no paciente seu self inicial já analisado que ele pode analisar o paciente” para ilustrar um pouco cito um uma questão trazida pelo supervisor na supervisão do dia 25/08/16, a colega A. R. comentou com o grupo que tem dificuldades para encontrar o que está por trás do discurso do paciente, dúvida que muitos dos colegas afirmaram ter, a explicação veio na forma de pergunta. “Qual o sabor da laranja?” Além de ser uma resposta muito subjetiva, o sujeito só vai reconhecer o sabor da laranja após ter provado uma; quer dizer, o analista só reconhecer a a angústia do paciente se já a tiver conhecido. É de fundamental importância para o analista conduzir uma boa sessão que sua análise pessoal esteja em dia. Neste artigo vimos que na contratransferência normal, o paciente faz a identificação projetiva e o analista se identifica, mas consegue sair da situação clínica e ir para a situação de observador para poder interpretar essa transferência; na transferência patológica o analista fica preso na situação clínica e não consegue interpretar.

Roger nos traz duas situações que complicam a vida do analista na sessão, em uma delas o analista fica preso na situação clínica e a contratransferência pode ser de cunho esquizoparanóide, onde ele acredita que o paciente o calúnia, o persegue e quer mostrar sua ignorância, ou depressivo onde o analista se coloca no lugar onipotente do reparador. A segunda situação que nos é trazida é a do fracasso, onde o analista se sente fracassado por uma não melhora de seu paciente. Contratransferência é tudo aquilo que é gerado ao analista pelo paciente, o analista tem que saber o que fazer com esse sentimento, tem que sair da identificação, reconhecer a transferência ou contratransferência e separar o que é dele e o que é do paciente. Na supervisão do dia 29/08/16  às 19:15 a colega M.T.S. trouxe um caso onde a paciente reclamava que os pais a oprimiam e manipulavam, casou-se para sair da casa dos pais mas o marido também a controlava, agora namora uma mulher que também a controla, a analista se identificou com a situação e se colocou como o falo para a paciente, não conseguiu sair e se colocar em posição de observadora, ficou presa na situação clínica.

Continuando com a contratransferência patológica temos a seguir um artigo de Irma Brenman Pick  “Elaboração na contratransferência” 1985, o qual nos traz mais situações que ocorrem na clínica, Irmã compartilha da mesma opinião de Strachey que diz, “a interpretação é algo que tanto o paciente como o analista temem”.  Ela também nos diz que a vivência no setting é necessária, e o analista não pode acolher essa vivência sem senti-la, vivencia-la, e é justamente aí que entra o temor, pois é difícil sair da situação clínica e se colocar na posição de observador, e quando consegue estar fora da situação clínica para fazer sua elaboração, tem que ter empatia para com seu paciente, não pode ser frio, e ela nos diz mais, que interpretar em determinadas situações poderia ser um pouco cruel, o analista precisa elaborar uma interpretação ética, onde se possa colocar junto ao paciente, demonstrando que se importa com ele, se compadece de seu sofrimento, mas com o devido cuidado do par analítico não formar um conluio para se proteger dentro da análise, por exemplo, ambos podem negar conhecimentos desagradáveis mas permanecerem numa situação confortável.  “O analista, como o paciente, deseja eliminar o desconforto bem como comunicar e partilhar experiências; são reações humanas comuns. Em partes, o analista tem um impulso de encorajar, e algo disso será expresso na interpretação. Isso pode variar desde uma indulgência implícita, acariciando o paciente com palavras, até respostas hostis ou distantes ou gélidas que parecem significar que a carência da experiência que o paciente lamenta não tem importância alguma; uma afirmação de que a experiência mecânica de objeto parcial é tudo o que é necessário.” Este trecho citado acima pode nos trazer mais esclarecimento.

Entre os autores estudados temos Edna O’Shaughnessy com o artigo “O Complexo de Édipo invisível. Edna vai nos dizer que determinados pacientes demonstram não ter complexo de Édipo  e castração, parecendo assim sem importância, mas ao contrário do que demonstram esses complexos estão lá, muito bem escondidos, é um caso de cisão de personalidade, onde parte do self fica guardado, protegido, é um pedaço do self onde se encontram o núcleo do complexo de Édipo e castração.  Os kleinianos dizem que “sua abordagem quando o complexo de édipo é o que estou chamando de “invisível”, é a de que ele é assim não porque não seja importante, mas porque é tão importante, e sentido pelo paciente (por qualquer que sejam suas causas) como tão inegociável, que este se utiliza de meios psíquicos para faze-lo e mantê-lo invisível.” Isso acontece quando os primeiros estágios do complexo de Édipo e castração são alcançados após um desenvolvimento perturbado, que por algum motivo o sujeito não suportou essa descarga emocional, tendo passado por muita dor psíquica;  então para evitar um retorno desse desconforto sentido na situação edípica inicial o sujeito cindi esse núcleo do Édipo e o esconde muito bem, para que não possa ser encontrado. Vamos ilustrar um pouco mais esse tema, vamos voltar lá na infância do paciente:  A cena primária traz dois traumas principais, o primeiro é a estimulação além do limite em que o ego pode suportar, o segundo é que a cena primária exclui a criança, que até o momento acreditava ser o centro da casa, e em determinado instante percebe que o papai ea mamãe formam um casal, do qual ele não faz parte e que eles fazem sexo, o que nunca farão sexo com ele, além da exclusão o sujeito passa a invejar a figura do casal parental. O sujeito não apenas sente uma excitação além do suportado, que não consegue lidar como também se sente excluído, de fora, sozinho; e o sujeito prefere viver com determinados problemas, ao encarar novamente essa situação edípica que lhe traz demasiada dor. Vou citar aqui um caso trazido na supervisão do dia 25/08/16 às 19:00 pela colega M.S.A. que acredito possa ter algo relacionado a esse artigo, paciente homem com discurso muito narcísico onde diz fazer oque quer, do jeito que quer, quando quer, acredita que seus relacionamentos o atrapalham, são estorvos, “não quero abrir mão de mim só quero encontrar um relacionamento compatível”. Na discussão da sessão ficou na dúvida em que posição do Édipo ele se encontrava ou se havia Édipo.

Para finalizar os Pós-Kleinianos estudados temos Herbert Rosenfeld com o artigo “Uma  abordagem clínica para a teoria psicanalítica das pulsões de vida e de morte: uma investigação dos aspectos agressivos do narcisismo”; o núcleo deste artigo é o conceito de organização narcísica. Organização narcísica é quando a pulsão de morte por um processo chamado fusão patológica (na fusão das pulsões a pulsão de morte sobressai de forma agressiva e violenta a pulsão de vida, enquanto que na fusão normal a energia destrutiva fica atenuada e neutralizada), um ou mais self que se formam dentro do self principal, como se tivessem vida própria esses selfes se juntam para sabotar o relacionamento EU – OUTRO e ficar em uma situação que a dependência possa ser evitada, temos casos gravíssimos em que o self principal é totalmente subjugado por essas organizações narcísicas, e como resultado o paciente parece alienado ao mundo, incapaz de pensar podendo assim perder o interesse pelo mundo externo e quer ficar só na cama, sente-se perdido. Na análise desse tipo de paciente encontramos hostilidade e desconfiança além de muita resistência e uma força que se defende a todo custo da cura e que está decidida a agarrar-se à doença e ao sofrimento.

Segundo Rosenfeld quando esse paciente na clínica percebe a realidade e que de certa forma está dependendo das interpretações do analista, ele quer morrer, negar o fato de seu nascimento a depender do outro, e com certa frequência o paciente quer desistir da análise, começa agir de forma autodestrutiva no seu meio social e profissional em alguns casos podem tornar-se suicidas, preferem desaparecer no esquecimento ao invés de reconhecer sua dependência, a morte é idealizada como uma solução para todos os problemas. O autor nos diz que “No entanto, analiticamente podemos observar que o estado é provocado pela atividade das partes invejosas e destrutivas do self, que se tornam gravemente cindidas e difusas do self libidinal cuidadoso, que parece ter desaparecido. Todo o self fica temporariamente identificado com o self destrutivo, que busca pelos pais e pelo analista, destruindo o self libidinal dependente, vivido como a criança.” Organização narcísica é uma defesa contra a inveja, que é o medo da dependência.

Como foi colocado no início, este texto trata-se de apenas uma abordagem parcial dos trabalhos desenvolvidos pelos autores citados.

¹Aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP. 

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