Histeria: da Antiguidade ao Século XIX

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Por Thaís Jamyle Pinheiro Dionísio Cavalcante1

Mesmo nos dias de hoje a histeria é uma palavra largamente usada e pouco conhecida. Ninguém sabe muito bem como defini-la, e não só os leigos. Parece que, desde que ela começou a se manifestar entre nós, define-se justamente pela sua falta de definição.

A histeria começou a ser documentada no século IV a.C., com Hipócrates. A origem da doença é atribuída ao útero, que também lhe empresta seu nome (hystera, "útero" em grego). Daí concluímos que ela é, desde o começo, atrelada à condição feminina. E estudada pelos homens. E esses dois fatos influenciarão, pelos próximos séculos, a classificação e o tratamento da histeria.

Partindo da concepção de Platão de que a mulher é uma criatura mais animal do que divina, atribui-se ao útero uma curiosa independência: ele é considerado um pequeno animal com vontade própria que pode se deslocar dentro do corpo. E dependendo do lugar do corpo onde o "animalzinho" se aloja e do órgão que ele sufoca, temos um sintoma histérico:
os desmaios, a catalepsia, a falta de ar.

Mais à frente, na Roma Antiga, os médicos Soranos e Galeno observam que a histeria se manifesta especialmente entre mulheres que passam por abstinência sexual. Galeno entende, portanto, que a falta de sexo leva a uma retenção do "esperma feminino", uma substância que, acumulada, pode envenenar o corpo, afetar os humores. O tratamento é claro: a atividade sexual regular. Essa ideia se fixará por muitos séculos, ora se escondendo, ora retornando com muita força.

Na Idade Média esses conceitos médicos são esquecidos, e a histérica é vista simplesmente como uma mulher dominada pelo demônio. O exorcismo – ou, no caso das condenadas por bruxaria, a sentença de morte – é a solução. O Diabo se associam, então, à histeria: como ele, a doença é enganadora e se apresenta sob várias máscaras.

A natureza confusa da histeria foi por muito tempo objeto de atenção dos padres. Mas a partir do século XVII os médicos retomam seu domínio sobre a discussão. Muitas ideias da Antiguidade são recuperadas depois da tradução de obras gregas feitas após a Renascença. Uma delas é a concepção de que vapores circulam no interior do corpo humano. Não mais pelas artérias, como se acreditava antes da descoberta do funcionamento da circulação sanguínea, mas pelos nervos. E esses vapores seriam influenciados pela fermentação produzida pelo corpo, afetando diretamente a saúde: os fermentos do esperma (feminino ou masculino), portanto, liberariam os vapores histéricos. E com um detalhe importante: apenas os vapores femininos chegariam ao cérebro, o que explicaria a ocorrência da histeria entre as mulheres. Essa teoria, portanto, tira do útero a sua exclusividade como causador da doença e traz um novo "personagem" para o palco: o cérebro.

A crença nos vapores e espíritos animais viciados que circulam pelo corpo cai por terra conforme avançam os conhecimentos da anatomia humana. No século XVIII, a origem das "doenças dos nervos" se fixa no cérebro. E Franz Anton Mesmer, médico alemão, mexe com a imaginação da Europa ao apresentar os poderes do "magnetismo animal".

A ideia é que Mesmer possuía em seu corpo um magnetismo especial, oriundo de sua conexão com os ritmos da natureza, do universo. Portador e transmissor desse magnetismo, declarava-se capaz de alterar estados histéricos ao tocar as doentes. Paradis, sua paciente mais famosa, teria mesmo se curado de sua cegueira (fato desmentido pelas pessoas próximas à moça). Fazia sessões coletivas de cura, onde várias pessoas entravam em crise, mas uma crise que supostamente tirava o mal de seus corpos, que desafogava suas sensações acumuladas.

O magnetismo caiu em descrédito até meados do século XIX, quando o britânico James Braid recupera a técnica e a renomeia "hipnose", divulgando-a por meio de sua obra, publicada em 1843. Além de estar ao alcance de todos, ele observa o poder de sugestão que o hipnotizador tem sobre o hipnotizado. A comunidade médica não demora muito para testar a hipnose em pacientes histéricos. Constatam, com assombro, que os sintomas podem sumir sob efeito hipnótico ou que novos sintomas simplesmente aparecem mediante sugestão. Quando o paciente acorda, no entanto, todo o efeito se desfaz. Não há qualquer avanço em direção à cura.

Portanto, a hipnose serve apenas para confirmar o caráter enganador da histeria e de suas manifestações, para constatar que pouco se avançou desde a Grécia Antiga. Por mais algumas décadas, a histeria ficará relegada às periferias dos manicômios, incompreendida. As pacientes são jogadas na mesma ala dos epiléticos. Ninguém sabe o que fazer com elas. Somente Charcot, encarregado dessa ala um tanto marginalizada no grande hospital dos alienados de Paris, a Salpetrière, enfrentará o problema de frente e mudará de vez a história da histeria.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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