A banalização do mal

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Por Francine Brandão1

A primeira palestra O Holocausto e a Subjetivação do Outro trata de uma visão sobre o holocausto a partir de Hanna Arendt, uma sobrevivente da segunda guerra que se refugiou nos EUA  e se dedicou a compreender os regimes totalitários, o nazismo e as consequências desses eventos para a humanidade.

Destaca as formas com que um regime totalitário priva o ser humano de sua individualidade, de seu próprio ser, através de uma destruição simultânea de seu ambiente, casas, negócios, centros religiosos, ou seja, tudo aquilo que tem um significado para o indivíduo. Suas armas são a mentira, a fabricação de uma realidade imposta perversamente, o biopoder- poder sobre a vida onde se torna possível a criação de corpos dóceis que lhes são necessários, usado inclusive para a implantação do capitalismo-, a privação de um sonhar, onde já não se tem esperança e a morte passa a ser desejada. Os inocentes morriam como coisas e sem alma, com uma crueldade que escapa à compreensão humana. É a produção de um inferno na terra. Destaca também a importância de tal relato e estudo para que o que se deu não aconteça mais, e deixa a reflexão sobre nossa realidade contemporânea onde o sentido de se viver em cidades deveria ser o bem comum, mas vive-se como se estivéssemos em campos de concentração onde o biopoder  é aplicado até hoje. Acontece um paradoxo: um poder que deve ser usado para proteger a vida é o mesmo que autoriza o holocausto.

A palestra Sobrevivendo à Desumanização nos traz questionamentos sobre a capacidade de escuta analítica: qual o limite da escuta analítica? Como escutar toda experiência humana? Será que nós, analistas, temos teorias para tanto, ou seria pura arrogância? Como não soar arrogante diante do sofrimento de cada ser humano? Precisamos ter cuidado para não reduzir o sofrimento do outro a simples teorias. Para as experiências dos campos de concentração não há vocabulário para interpretação analítica porque são da ordem do indizível. Aponta para os métodos de desumanização utilizados nos campos, a saber: uma sociedade que divida as pessoas em grupos - quem tem e quem não tem privilégios; solidariedade substituída pelo egoísmo( como única possibilidade de salvação) ; quem tem privilégios oprime os que não têm; submissão a atos amorais- que a própria pessoa considera imoral, mas que é a única possibilidade de sobrevivência; que os condenados nunca saibam porque foram condenados; nada era feito de graça; a quem tem, será dado e a quem não tem será retirado; redução do social para o individual e a partir daí operar a desumanização; nada deve fazer sentido- ausência de sentido ( o ser humano precisa de um sentido para se constituir como sujeito; se se retira isto, dá-se um passo a mais na desumanização); transformação em animais; redução aos seus instintos mais baixos, já não se pode pensar ( significava criar o inferno: tem água mas não se pode beber, tem banco mas não se pode assentar ,ou seja, o indivíduo se reduz a suas necessidades básicas, destituído de uma alma, de um passado e de um depois. Qual era a organização social? Era reduzir os seres humanos a animais e retirar deles a compaixão, empatia e solidariedade, e desqualificar esses valores como sendo valores de pessoas fracassadas e vencidas. Como sobreviver a isto?  Nos campos não havia regra e só se podia contar com a sorte. O palestrante conclui: - Quando se atem ao título do artigo imagina-se que se apegando a valores morais maiores como o bem, o sonho, a esperança ... esses seriam fatores de sobrevivência... mas aqui não é bem isto e isto espanta! Aquele que melhor se adaptasse teria mais chance de sobrevivência. Esses métodos podem estar mais perto de nós do que se imagina.

A próxima palestra, O Mal Estar na Cultura, é um recorte da obra freudiana ( 1929-1930)  que enfoca o ser humano em sua busca de felicidade e satisfação de seus desejos e também de suas necessidades básicas de autopreservação, que é condição de sua realização. O ser humano é um ser de desejos e não de instintos, o que o diferencia do animal, e para a realização de tais desejos há necessidade de esforço por parte do indivíduo porque, tanto a realidade interna (limitações pessoais) quanto o meio externo ( natureza) colocam obstáculos, o que traz também sofrimentos. Uma das alternativas que os seres humanos encontraram para facilitar essas conquistas foi viver em grupos( família, sociedade,etc.), mas isto tem um custo: controle da agressividade, sacrifício parcial da liberdade, atraso ou não da realização de certos desejos, etc. Há uma cota de agressividade inata no indivíduo que quando provocado reage e precisamos dar conta desta agressividade. Aqui entra o superego como uma instância na qual o ser humano traz para dentro de si as regras de seu próprio processo civilizatório fazendo com que o indivíduo possa lidar com suas próprias questões: haverá uma tensão entre ego e superego que gera a culpa. Esta tem duas origens: uma interna advinda do superego e outra externa advinda de uma autoridade externa. A má consciência seria uma consciência frouxa, sem rigor, onde o superego busca uma oportunidade para que um castigo aconteça no real, colocando a agressividade para fora. Fica, então, a grande questão: se o superego é uma continuidade e carrega uma severidade de uma autoridade externa, quer dizer que em sua formação e no surgimento da consciência fatores constitucionais inatos e influenciados do meio ambiente atuam de forma combinada. O que estamos fazendo com nossa agressividade?

Em A Violência Invisível a palestrante começa com uma questão importante: se queremos cultivar uma cultura de não violência, precisamos conhecer com intimidade nossa mente e nosso corpo, coisas íntimas de nós mesmos. Praticamos violência contra nós mesmos, contra nossa mente  quando não a estimulo, quando a impregno de sombras e fantasmas e contra nosso corpo desrespeitando-o de várias formas. Violentamo-nos porque não nos conhecemos. É preciso se observar e esquecer-se de si mesmo, daquele eu menor, do nosso egoísmo, do eu em primeiro lugar, é a transcendência do corpo e da mente. Isto é iluminar-se, é ir além. A violência silenciosa é quando vivemos a dualidade, a separação do eu e do outro que considero estranho a mim e não um outro semelhante a mim. Quanto de discriminação trazemos em nós e que negamos? Deve-se abrir o olhar de compaixão do não-outro que é o mesmo do não-eu: enquanto existe um eu violento, agressivo, existe o outro que se opõe a mim. Mas, quando transcendo o eu, crio a paz ao meu redor. É preciso viver o hoje, deixar o ontem e o depois. Um meio para a não-violência são as práticas meditativas que nos dá uma percepção clara da essência do eu, que é o não-eu, que é a transcendência do eu e do outro. E violência é não permitir o crescimento ou o desenvolvimento do potencial de uma pessoa, é não reconhecer as necessidades básicas do outro, é impor nossas próprias necessidades.  É deixar de questionar. O olhar para si, a percepção das próprias emoções faz com que se possa controlar essas emoções e não reagir de acordo com elas. Não é negar as emoções, mas aprender a lidar com elas. Isto é não-violência e compaixão. A não-violência seria o abandono do eu para o nós, uma percepção do coletivo e não do individual.

Em A Parte Obscura de Nós Mesmos trata sobre o tema da perversão e da sociedade perversa. O que seria perversão? Será que não seria utopia acabar com as perversões? Será que a busca de perfeição não poderia transformar a própria sociedade em perversa sendo isto a causa de tantos sofrimentos atuais? Será que o caminho não seria de aceitação do mal? Mas o que é considerado perversão? Hoje, na psicanálise, perversão está relacionada à crueldade, ao sadismo, ao comportamento anti-social (que não é timidez, nem reserva). É ter prazer em destruir. Há de se perceber que existe um grau de agressividade inata do ser humano que precisa ser aceito dentro de cada um; o mal faz parte de mim e pode ser uma violência silenciosa (imposição de nossos desejos, bulling, etc). O perverso usa o outro como objeto e é uma defesa contra a psicose e está ligada ao abalo das relações de segurança e confiança na maternagem. As defesas se levantam frente ao vazio, á sensação de aniquilamento, ao desconhecido. O desafio do tratamento então seria levar o indivíduo a se relacionar com o mundo sem se sentir ameaçado.

Trabalhando com a Violência trouxe o relato de um delegado de polícia com seus desafios diários de se trabalhar em uma sociedade capitalista, violenta, onde acontecem desde estelionatos à crimes bárbaros. Coloca a questão da lei penal que considera boa no Brasil, porém, falha na sua execução e também o papel dos meios de comunicação e redes sociais na propagação do mal e da violência.

Educação e Violência mostra as dificuldades que se tem de recuperar um menor infrator que não é vítima apenas de sua própria demência mas de uma cultura de violência muitas vezes gerada pela pobreza numa sociedade altamente consumista. Como desconstruir o que foi construído? Eis o grande desafio. Aponta a espiritualidade como porta de saída.

Por fim, Violência como Sintoma Contemporâneo traz a reflexão sobre o sonho da modernidade que morria juntamente com os judeus em Auschwitz, pois com toda tecnologia existente ali, o que se produziu foi uma transformação de homens em não homens, uma fábrica que visava destruir. Ficam as perguntas: O que fazemos com nossa própria destrutividade? A sociedade educa ou corrompe o indivíduo? Importante é focar em que somos seres bons e maus e para isto não há desculpas. Frente a este fato cabe à própria pessoa se responsabilizar pelo seu psiquismo, seu inconsciente, sua questão com a dependência, seu lado perverso.

Em minha opinião, o mundo capitalista tem oprimido o ser humano que  responde a este fato de duas maneiras: ou sobrevivendo como vítima de um sistema que traz, em algum grau, as características do sistema imposto em Auschwitz que descaracteriza o ser humano em suas bases mais rudimentares, fazendo com que viva como “seres anestesiados” e completamente submissos; ou, o ser humano pode assumir uma postura de “senhor de sua própria história” trilhando um caminho de percepção de si mesmo, de seus sofrimentos, de suas mazelas, de seu narcisismo, egoísmo, perversões, preconceitos, percepção de seu próprio ser donde emana o bem e o mal, ou seja, assumindo a responsabilidade por sua própria vida, tendo-a em suas mãos independentemente do que a vida lhe trouxe ou trará. Seria optar pela segunda alternativa e trabalhar para que mais pessoas tenham condições de fazer esta escolha. Tarefa difícil? Sim. Todas as pessoas terão condições de fazer esta escolha? Talvez não. No entanto, é como passarinhos apagando o fogo de uma grande floresta com pequenas gotinhas trazidas em seu bico. Isto tem um nome: esperança! E isto pode dar um sentido para nossa vida. No entanto é necessário assumirmos que somos seres interdependentes e que todos têm algo a contrubuir. Aprendemos uns com os outros e amadurecemos a partir do enfrentamento de desafios. Neste ponto a psicanálise pode dar a sua contribuição na medida em que faz com que voltemos o olhar para o nosso interior e que, a partir daí, paremos de negar a agressividade ou violência latente que existe em cada um de nós. Se hoje percebemos em nossa sociedade a banalização do mal talvez seja porque perdemos a capacidade de contato com aquele que nos é mais próximo: nós mesmos. Já não podemos ter compaixão por nós mesmos. Como, então, estender esta compaixão ao próximo? O “conheça-te a ti mesmo” é o caminho para reconhecermos nossa impotência e é ponte para a transcendência que, a meu ver, é a grande porta de saída para o ser humano, porém, estreita demais e onde poucos adentram.

1Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da Escola Paulista de Psicanálise-EPP.

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