Algumas considerações clínicas sobre os autores pós- kleinianos

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Por Andreia Rodrigues dos Santos1

H. S. em seu trabalho demonstra que existem aspectos depressivos na esquizofrenia. Dentro da posição esquizo-paranoide, pode haver um núcleo depressivo que é atingindo pelas interpretações das ansiedades persecutórias e seus mecanismos de defesa. O acesso a P.D. é momentâneo e cíclico.

O núcleo depressivo muitas vezes é projetado via Identificação projetiva (I.P.) para o analista e é através da contratransferência produzida. E o analista através do uso da contratransferência vai ser capaz de formular suas interpretações. H. S. faz suas interpretações na P. S. = usando objetos parciais e P. D. usando objetos totais. Ela não discuti, ela informa o que ocorre, cobre o vazio fazendo uso concreto da palavra. Usa a fala como coisa em si, e não algo portador de um significado (cobre o vazio da sessão).

Equação simbólica = não há separação entre o entre o sujeito e o objeto e há a I. P. – símbolo no lugar do objeto – formação de objetos na esquizofrenia.

Beth Joseph diz que a I. P. é um mecanismo de defesa do Ego, resultado de uma estrutura ou faz parte de uma estrutura, Existe um ponto de equilíbrio nas defesas do Ego do ponto de vista Kleiniano, a saber: - a onipotência, -cisão (ou dissociação). – idealização, - I. P. . I.P. = Sistema de defesa contra inveja/dependência, tentativa de apagar a diferença entre o Eu e o outro (ataque ao outro), eu narcísico. Na I. P. há descarga, não há trabalho no pensar, é uma evacuação mental. São defesas impiedosas em relação ao objeto. Defesas menos arcaicas (P.D.) há par eu e tu bem estabelecido, dai a I. P. como comunicação. Na I. P. uma das consequências é o horror a diferença entre o eu o outro. Na clinica o analista é o receptor de todas essas projeções, analista não vai saber a diferença entre ele e o paciente, mas num determinado momento o que se espera é que o analista possa assumir o posição de observador (o terceiro Édipo) e sair da posição da identificação e poder olhar a situação apenas como observador e a partir desse lugar ele poderá formular a sua interpretação. Analista precisa nessas relações de objeto na pratica clinica, saber o que ele esta recebendo da I. P. , que lugar ele esta ocupando e poder a partir dai transformar esse conhecimento num interpretação para o paciente.

Explico esse dois autores juntos para fazer uma abordagem teórica e clinica da contratransferência. Irma B. Pick = contratransferência e suas explicações clinicas – ela faz um levantamento de quadros sobre a contratransferência bem como suas implicações clinicas. O Inter jogo entre os modelos para o entendimento da mente (P. S. e P. D.) e a I. P. .Roger Money – Kyrle = Contratransferência : Roger divide com Paula Heimam o reconhecimento no meio psicanalítico de ter postulado o conceito de que a causa da contratransferência é um processo ativo do paciente em relação ao analista. Esse conceito foi fundamental para Bion colocar a I. P. como um processo de comunicação na contratransferência.
Contratransferência normal: situação onde o paciente transfere para seu analista na I.P. partes excindidas de seu self que por uma propriedade chamada de empatia, esse analista re-conhece (nele mesmo) e interpreta a situação a seu paciente.

Contratransferência patológica: sair da situação clinica como observador, ou seja, ele não consegue re-conhecer, ele não consegue ir para o lugar do observador, dai ele passa a atuar na transferência e não a interpretar a transferência. Isso acontece 1) Partes do analista na P. D. o analista se coloca no lugar daquele que vai reparar onipotentemente seu paciente e na P. S. a transferência tem caráter persecutório (analista vê o paciente como um objeto que o persegue, calunia (contratransferência sádica). 2) Analista no lugar de pai/mãe que impediria que o paciente possa elaborar a situação entre ele e seus objetos internos que representam seus pais. 3) Fracasso (sensação) diante do paciente, uma sensação de não melhora. Profundo sentimento de culpa gerada pelo superego analítico. O analista precisa fazer a I. P. de partes de seu próprio self, precisa dar conta de sua ansiedade.

Analista precisa re-conhecer o que é dele e o que é do paciente = identifica, reconhece e interpreta. A interpretação, tanto para o paciente quanto para o analista é temida. Por isso é preciso ter ética e bom senso. Usar a I. P. com inteligência e saber suportar a angustia analítica do não saber.

Edna vai falar de uma questão de uma cisão na personalidade onde partes do self onde está guardado o Édipo e Castração esta cindido e difundido contra tudo e todos (self) protegido. O núcleo do Complexo de Édipo é o que aproxima as pessoas – melhor antidoto contra o narcisismo puro e simples. Manter esse self é importante porque ele é uma esperança de se ligar ao outro. Alguns sentimentos continuam preservando na clinica e tem como raiz o édipo com : exclusão (angustia de exclusão)

Separação (angustia de separação)
Estar só na presença do outro ou do par edípico
Cisão sexual

Par edípico Pai/Mãe e filho = filho percebe que o pai e mãe formam um casal e fazem coisas das quais ele não participa e que essa atividade tem a ver com sexo e com formação de novos bebes; então o mundo dessa criança é separado em dois. Nesta posição nova ele esta excluído. Ele percebe que não pertence aquela geração – há a percepção da transgeracionalidade.

Rosenfeid trabalha a questão de como a pulsão de morte pode a partir de um processo de cisão do self criar uma entidade clinica chamada de gangue narcisista.

Organização narcísica – no ego e no ID, na formação do superego há uma defusão das pulsões de vida, do erotismo.

Defusão: pulsão de vida e pulsão de morte são defundidas na formação do superego.

Com a pulsão de morte livre no sistema, se desenvolve um self (selves – dentro de um self podem existir outros selfs), este self estabelece uma relação narcísica com o self libidinal (pulsão de vida).

Uma das facetas da RTN é causada por essa organização narcísica que por meio de uma promessa de plenitude ou por meio de ameaças subjulga essa self libidinal de forma a atrapalhar o andamento da analise.

Em uma analise, analista faz com que o individuo saia da sua organização (de seu narcisismo) e possa contemplar de uma vida onde existe um outro separado de si. Isso vai contra a organização narcísica que quer a dependência com esse outro. O reino da inveja que ganha uma organização – um self que pode se comunicar (um ser dentro de outro ser), que pode ter vida própria. Não há fusão da pulsão de vida com a pulsão de morte, dai uma parte da pulsão de morte acaba não sendo fundida com nenhum outro processo e esta parte não fundida começa a criar um self separado, chamado de gangue narcisista. Esse self subjuga o self libidinal e forma uma relação patológica enviando para o meio ambiente via I.P. – inveja ganha uma organização própria.

A organização narcísica é uma defesa contra o sentimento de inveja que é o medo da dependência. A inveja( medo de depender de ) tende a eliminar qualquer relação objetal.

O caso que apresento de onde eu tirei algumas conclusões seque abaixo, é um caso do aluno Marcos Campelli apresentado em supervisão.

Paciente homem, 47 anos, vive sozinho. Teve um relacionamento, mas não chegou a casar-se. Separou-se e arrumou outra namorada 16 anos mais nova a qual, após separar-se, não consegue “tirar da cabeça”. Quando pequeno, viveu adotado por parentes e hoje vive de negócios deixados como herança.

A: Boa tarde; o que temos para hoje?

P: Nesta semana, acabei mandando um e-mail para ela [a ex-namorada]. Essa questão romântica, meio, sei lá, fora de hora... Eu sei o quanto ela não gosta, sei o quanto. ela.. Talvez seja uma coisa até chata e aborrecedora prá ela. E sei disso porque acontece comigo. Tem uma mulher que, não sei por que cargas d'água começou a tentar entrar em contato comigo. Eu fui muito polido no começo, bem delicado e educado com ela, e depois disse “olha, não tenho interesse nenhum”. E ela tem um relacionamento, tá namorando ou tá casada, eu nem quis saber direito, realmente não me interessou saber. E aí eu fiz esse paralelo entre essas duas situações. Eu vi o quanto esse tipo de interação chateia e aborrece, mesmo. Você ficar recebendo assim eventualmente “ó, bom, dia, não sei o quê, e tal...”. “Não é de ti que eu gostaria de receber bom dia”, não sei se é isso que me irrita ou se tem algum outro motivo, mas eu vejo que é uma interação forçada e insistente. Falei outro dia com certa veemência [com essa mulher], e pensei “ah, agora ela vai parar de insistir”. Mas agora ela retomou, a pouco tempo, começou a me procurar de novo. E aí eu faço esse paralelo, sei o quanto isso é irritante e chato. Por isso eu me sinto extremamente mal, pelo fato de eu ter mandado o e-mail, o fato de eu ter insistido e procurado a [ex-namorada] várias vezes, sabendo que ela não tinha vontade nenhuma disso. Eu não sei como me comportar. Um ano depois que tínhamos separado eu a procurei, ia com frequência na casa da mãe dela quando ela não estava, mas houve 2 ou 3 vezes que ela estava e não saiu do quarto, não interagiu comigo de forma alguma, daí remontei à isso de ela realmente não querer falar comigo, por isso que eu me sinto assim... Não a tenho encontrado, não a tenho visto. Às vezes a vejo em alguma foto. Na academia que frequento, ela também vai em outro horário, e eu sou amigo do dono e lá outro dia eles tiraram fotos e eu a vi nas fotos. Eu a bloqueei no FB, achei por bem já que ela havia me bloqueado. Quero crer que fiz isso por salvaguarda, quanto menos eu a vejo, menos eu sinto. E tenho tido algumas recaídas. Mas, a coisa tem seguido bem, eu creio, tem sido melhor, não tenho sofrido tanto quanto antes. Ah, aconteceu ontem À noite: vi uma notícia na TV, e comecei a chorar copiosamente, algo mexeu comigo e eu não sabia por quê. Era um caso de abandono, ou de criança, não lembro direito. Mas eu lembro que chorei copiosamente, de molhar o chão e ter que passar pano... Explosão de sentimento, mesmo. Não me lembro exatamente o que desencadeou, foi no Jornal Nacional. Seria bom se eu lembrasse com exatidão, mas, não lembro.

A: Mas, foi num telejornal, então?

P: Sim. E é difícil lidar com isso.

A: E você se deixava afetar em situações semelhantes também enquanto namorava?

P: Sim, mas... Acho que aí era sobre quando era notícia envolvendo morte e criança.

A: Me parece que houve dois momentos importantes: um no qual você deu um “gelo” numa mulher que não tem interesse, e comparou seu sentimento em relação à essa mulher, com um sentimento que você acha que sua ex-namorada tem em relação à você – incômodo, chatice; e outro no qual, através de um veículo de informação, você recebeu uma informação a mais a respeito de si mesmo: “criança abandonada”.
(Falou em seguida sobre gostar muito da ex por causa da aparência física, ele a considera muito bonita, mas no plano das ideias, não batem; e falou pedindo desculpas, disse que acha a mulher que ora o assedia muito feia, além de estar enrolada, e há outra mulher na academia com quem está estreitando algum relacionamento, com flertezinho, trocas de olhares, curtidas em FB, mas não consegue desgarrar-se do que sente pela ex, e ele mesmo confessa que vai “encontrar algum motivo para que isso não vá para frente porque gosto de gostar da ex”. Falou que conheceu uma Argentina via Internet, por quem encantou-se pela imagem, usou o termo “platônico”, interessaria conhecer mas mora a 110 quilômetros... Outra em Santa Catarina, mas interação foi muito formal e polida).

A: Me parece que recursos para conhecer pessoas, não lhe falta?

P: Sim. Mas ainda gosto da imagem corporal, física da [ex-namorada]. Quanto às outras, tem essa questão geográfica que me chateia.

A: E esse e-mail que você escreveu, você teve retorno? (hipótese: você foi informado sobre o que sua ex-namorada pensa, ou você está fantasiando o que ela possa estar pensando, e sofre com essa fantasia?) 22:30

P: Escrevi anteontem. Não recebi retorno. A motivação primordial que me levou a escrever esse e-mail, na verdade, foi porque eu me lembrei de uma outra mulher com quem namorei na minha adolescência e com quem tive um breve encontro entre um ínterim no relacionamento com a [ex-namorada]. Então, escrevi um primeiro e-mail (para essa outra mulher), e acabei escrevendo um segundo e-mail para a [ex-namorada]. Eu gosto de escrever, de falar, de expressar alguma coisa, e não tenho para quem expressar isso. Mesmo que ela delete/exclua, ao menos enviei. E tem uma coisa que eu queria te perguntar: tem vários e-mails que eu escrevi para ela, o que que eu devo fazer com isso?

A: Qual o ganho que você tem tido ao manter esses e-mails, e qual o ganho você terá ao apagá-los?

P: eu os mantenho porque foram tão bem escritos, e de forma tão carinhosa... Me chateou muito quando apaguei fotos, eu me arrependo. Por isso que eu não quero deletar esses e-mails. Eu tinha uma pilha grande de cartas da época de adolescência e faculdade, e não sei por que cargas d'água eu as queimei. Não que isso me faça falta, mas eu gostaria de ter conservado.
(Paciente em seguida mostrou tatuagem que fez com as iniciais de seu nome, duas das quais coincidem com o do nome da ex-namorada, no lado interno do calcanhar esquerdo. Hipótese: paciente gosta de quem é e vê gratificação nestas cartas e e-mails, e conservando essa “beleza” pode fortalecê-lo para próximos relacionamentos? Ou não consegue superar o luto?). 35

P: Eu não sinto que uso isso para me penitenciar. Eu me lembro muitas vezes do sufocamento que aqueles sentimentos me provocavam [quando escrevia cada carta]. Consigo ver aquilo como um alicerce para uma coisa melhor que aconteceu depois. Passou, foi suportado e transpus. Essas cartas ainda estão carregadas de sentimento forte, mas acho que com o tempo me ajudarão como as outras me ajudaram. Eu te perguntei se deveria descartá-los, mas, acho que na verdade eu quero mantê-las. Acho que as próprias sentenças que eu uso ao escrever, vejo uma identidade pessoal minha ali... Não é algo que escrevi num afã de momento, de desespero, são coisas que me orgulho de ter escrito. Antes eu tentava buscar um estilo mais coloquial, porque achava que o interlocutor pensasse ser muito rebuscada a forma que eu gosto de escrever, mas... Sabe, quando me separei da minha ex-esposa, seguimos nos comunicando por e-mail e telefone, então, escrevíamos muito. Eu não queria que ela passasse por constrangimento desnecessário. Mas, voltando à situação aqui, a [ex-namorada] tem uma tatuagem que diz “que céu poderá satisfazer teu desejo de céu?”. É um extrato de uma frase de Manuel Bandeira do poema “A Morte Absoluta”, eu até cogitei tatuar a mesma frase, mas... Achei que ela não gostasse desse “plágio”, ela pudesse sentir como uma ideia roubada, ou sei á o quê... E é um poema triste, fala sobre a gente sumir desaparecer de forma que ninguém mais se lembre da gente, e que me faz pensar. Daí tatuei as iniciais porque isso na verdade remete à ela.
A: Teu desejo “de” céu, e não “do” céu, é isso?

P: Isso.

A: Humm, então, esse céu é indefinido. Por quê tem que ser um céu específico? Se esse céu está nublado, por quê não outros?

P: É que eu queria um céu que me fizesse sentir o mesmo. Quando a vi pela primeira vez, não consegui olhar para mais ninguém, nem me lembro das pessoas que estavam perto. Foi desde o primeiro momento que tive só olhos para ela, eu não sabia o por quê, e eu sou extremamente tímido, mas tinha que ser ela... Eu acho chato e deprimente chegar e falar alguma besteira para abordar alguém, gosto da troca de olhares... O mesmo que sinto quando a vejo atravessando a rua, como na semana passada. Essa vontade grande, enorme de ir lá e abraçá-la, cobri-las de beijos... Aleluia ela não ter ido mais nos outros lugares que frequento, porque quando a vejo, esse desejo vem. Sei lá. Me sinto meio tarado... Mas não é tanto sexual quanto carinhosa, afetiva... E sempre foi assim.

A: O impacto daquele sol radiante do primeiro momento ainda é profundo, mesmo que o tempo tenha mudado.

P: E sinto que não vai mais acontecer. Por isso que busquei a terapia, queria aprender a lidar com isso. Já me ajudou bastante, tem coisas que eu não conseguia caminhar antes, e agradeço bastante por estar conseguindo passar melhor por este tipo de situação.

A: Nosso tempo se esgotou. Você trouxe para a sessão de hoje que tem qualidades as quais considera que lhe são caras, nas quais você se reconhece, e que tem prazer ao expressá-las. Trouxe também que dispõe de meios para conhecer pessoas e fazer os seus testes. E você trouxe também que sente que vem fazendo progressos. Esses progressos, o que são? Seriam do tipo “deixei de sentir coisas”, ou do tipo “ainda sinto coisas, mas passei a escolher melhor o que fazer daquilo que sinto”? Nos vemos na semana que vem!

O que conclui com a pouca pratica que possuo é que o paciente não consegue elaborar ligações afetivas sem que haja a possibilidade do abandono (ele precisa ser abandonado e trabalha para isso em seus relacionamentos – repetição). Como I.P. paciente chora ao ver passar na TV a historia da menina abandonada. Isso desperta nele o Édipo, do abandono da mãe. Ao mesmo tempo em que, ele não consegue abandonar as lembranças (e-mails) que tem de seus relacionamentos, pois esses reforçam o seu abandono.

¹Aluna do Programa de Formação em Psicanálise da EPP.

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