O processo analítico à luz do pensamento tibetano sobre o viver e o morrer

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Por Márcia Velo Barros1

Um dia desses, procurando algumas ideias na internet, me deparei com o intrigante texto “Autobiografia em Cinco Capítulos” de Sogyal Rinpoche2. Ele me chamou a atenção e, então, questionei-me o quanto ele se parece com o processo analítico.
Aqui escrevo-o na integra:

 


Biografia em Cinco Capítulos:

Capítulo 1. Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída. 

Capítulo 2. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

Capítulo 3. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.

Ainda assim caio... é um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

Capítulo 4. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

Capítulo 5. Ando por outra rua.

Pensa-se o processo analítico como aquele no qual é possível, dada a condição psíquica de cada analisando, uma aproximação do caminho que se segue, das expectativas que se tem quanto às realidades, externa e psíquica, para uma abertura à questionamentos e, como bem dizia Wilfred Bion, para uma possível transformação.

Quanto mais abertos estivermos para uma intima aproximação de nossa verdade, e quanto mais sinceros pudermos ser conosco mesmos, mais teremos a chance de nos desenvolver psíquica e emocionalmente. Está aí um grande desafio, porém muito intrigante e curioso. A transformação humana não depende das pessoas à volta, não depende do analista, mas sim do próprio sujeito que é senhor em sua casa e livre para fazer as próprias escolhas, trilhar os caminhos que quiser e puder.

O processo analítico, para se desenvolver, depende de que o analisando tome contato consigo mesmo para que possa perceber suas responsabilidades, questionar sua direção, seus pensamentos rígidos, suas expectativas e fantasias. Isso não é algo que o analista lhe entrega pronto, mas sim algo construído na relação analítica com cuidado pela dupla.

Diante do texto podemos ver que conforme o sujeito aproxima o olhar para seu movimento repetitivo, pode questionar-se cada vez mais, pode responsabilizar-se por repetir na mesma dor de cair no (mesmo) buraco, até que possa ir buscando outras alternativas mais saudáveis, adaptando-se ao que a realidade impõe. O buraco ali é algo que ele não controla, é algo que ele não pode mudar, mas seu rumo sim, esse sim ele pode transformar. Deixar de repetir antigos hábitos destrutivos e dolorosos não é responsabilidade de ninguém mais que do próprio sujeito.

Portanto, com um processo analítico o sujeito tem a chance de, questionando-se, tentar andar por outra rua, buscar outro caminho, novos horizontes, novo olhar, talvez mais leve, mais livre, e próprio.

Não digo que seja algo poético e fácil. Não!! Ninguém nesse mundo tem condições de prometer o paraíso, mas é algo possível e transformador.

1Psicóloga e Aluna do Programa de Formação em Psicanálise pela EPP.
2Do livro "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer" – Sogyal Rinpoche

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